Em favor das palavras

A Ilusão Cômica, de Pierre Corneille, celebra os 21 anos da Cia. Razões Inversas e testemunha a sua maturidade

O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2011 | 03h07

Há muito tempo, informa o programa do espetáculo, o diretor Márcio Aurélio vem meditando sobre a encenação de A Ilusão Cômica. Só agora, quando o grupo que lidera completa o 21.º ano, foi possível levar ao palco a singular criação de Pierre Corneille. Entre os amantes do teatro é uma peça acomodada no escrínio das preciosidades, muito estimadas e raramente vistas em cena. Encenações memoráveis, como as do ator e encenador francês Louis Jouvet e do italiano Giorgio Strehler, são marcos na história teatral do século 20, mas, entre nós, a repercussão desses êxitos cênicos não foi até agora suficiente para impulsioná-la até o palco. Por vários motivos, o teatro brasileiro mantém uma distância respeitosa dos grandes trágicos franceses. Apenas Molière, entre os três celebrados autores do século 17, tem aqui trânsito fácil do livro ao palco. Além das virtudes próprias, a encenação apresentada pela Cia. Razões Inversas tem o mérito adicional de comprovar a acessibilidade do texto para os recursos atuais da cena.

Mais do que isso, a perspectiva adotada pela direção contraria algumas vertentes hegemônicas da atualidade e é possível que avance por uma trilha nova. Por tradição crítica, atribui-se à literatura dramática francesa do século 17 a coroa da suprema perfeição literária. Sem prever a intromissão dos elementos visuais, sonoros e táteis do espetáculo, o valor estético do texto repousa sobre as palavras. Desse modo, a peça seria a partitura a que a representação deve curvar-se com resignada humildade. Desde os anos 20 do século passado, contudo, a hegemonia do texto sobre os outros elementos do espetáculo foi contestada de vários modos em todas as fileiras da vanguarda.

Seguindo essa trilha com entusiasmo verdadeiramente tropical, nosso teatro repudiou tudo o que, mesmo remotamente, se assemelhasse a literatice. Desse modo, o grandioso patrimônio do drama barroco em que se encaixam Gil Vicente, Calderón de La Barca e Cervantes ficou aprisionado no limbo dos objetos preciosos e fora de moda e o mesmo destino coube a Corneille, cujas esplêndidas metáforas são a um só tempo plásticas e verbais.

Talvez porque seja necessário, antes de tudo, compreender as peças como acontecimentos que extravasam a moldura histórica tanto do tempo em que foram escritas quanto do tempo em que são encenadas, a Cia Razões Inversas moeu por mais de uma década os grãos dessa criação juvenil de Corneille. A leitura que o diretor Márcio Aurélio faz da peça é despojada, quase grave e, sem dúvida, pouco condescendente com a vertente "teatralista" que privilegia o jogo corporal, a visualidade e os valores sonoros da elocução. Fazendo analogia com os períodos históricos, pode-se dizer que Márcio Aurélio dirige uma peça barroca - em que o tema é o mundo como representação -, seguindo os princípios da economia trágica. Em vez da riqueza dos figurinos e do cenário, do encanto da música e da beleza das máscaras - elementos associados à teatralidade barroca -, a representação do grupo sublima os apelos sensoriais da comunicação teatral. E é, sem dúvida, um testemunho de maturidade do grupo a deliberada renúncia à sedução das imagens em favor do prestígio das palavras.

Fontes que Corneille utilizou para dourar sua fábula teatral constituem uma memória diluída pela encenação. O jogo corporal dos comediantes italianos que o teatro cortesão do século 17 aprende a admirar e assimilar, por exemplo, traduz-se nesta encenação por um esboço delicado como as memórias diluídas pela ação do tempo. Gêneros diversos como o fantástico, a comédia e a tragédia alinhavados pela narrativa em sequência para exemplificar a variedade da arte cênica, mesclam-se no espetáculo. Uma vez que sob a ótica contemporânea os gêneros tornaram-se indistintos, o romanesco, a paródia cômica e a tragédia têm a liberdade de imiscuir-se nos três planos da representação.

É também por meio da reflexão histórica que a encenação evita a euforia autocongratulatória comum nas obras cujo tema é o próprio teatro. Artistas de hoje não podem, talvez, partilhar a convicção de Corneille de que o teatro "atingiu tais altitudes que todos o idolatram". Situado em um patamar mais realista depois de mais de duas décadas de existência, a Cia Razões Inversas celebra antes de tudo a exigência vocacional do ofício. Seus atores- personagens envergam as máscaras cômicas atentos às ironias e à inteligência dos diálogos e amenizam a tragédia estilizada, revestindo de tonalidade poética a contraditória psicologia dos amantes. O maravilhoso que encanta e diverte é, nessa perspectiva, produzido pelo estudo dos temas e estruturas da peça e não pela beleza das formas, cores e acrobacias dos intérpretes. Não sabemos se a tradução de Valderez Cardoso Gomes independe do espetáculo, mas ajusta-se muito bem ao propósito do encenador, uma versão que reafirma a transparência cristalina da peça. Não há sequer resquícios da pompa neoclássica atribuída por tradição às obras posteriores de Corneille.

Desde 1990, o grupo trabalha sobre textos inéditos ou raramente encenados, aperfeiçoando-se por meio da diversidade estilística e de exigências técnicas que impedem a acomodação dos intérpretes. O programa artístico e a estabilidade formaram ótimo elenco que sabe o que faz e por que faz. Mas, mesmo nas formações igualitárias, há intérpretes que transcendem a moldura do grupo, Lavinia Pannunzio tem essa qualidade fulgurante e o espetáculo reconhece seu brilho estelar intrometendo na história a princesa Rosina, ferida no orgulho, altiva como prefiguração das princesas trágicas e, ao mesmo tempo, íntima de todas as amantes desprezadas.

Crítica:

Mariangela Alves de Lima

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