Divulgação
Divulgação

Em espetáculo ambicioso, Teatro da Vertigem leva o público para vagar pelo Bom Retiro

A partir de cenas improvisadas no bairro, o escritor Joca Reiners Terron construiu o texto da peça que tem direção de Antonio Araujo

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2012 | 20h00

É igual, mas é diferente. O Teatro da Vertigem, que completa 20 anos de trajetória em 2012, ganhou notoriedade pela maneira como se apropria de espaços públicos. Uma igreja, um presídio e até um rio já se tornaram palco para seus espetáculos. Vista por esse prisma, a estreia de Bom Retiro 958 Metros não constitui exatamente um desvio de rota. Trata-se de uma criação em que a companhia exercita aquilo que sabe fazer de melhor: ocupar e ressignificar áreas da cidade.

Mas a nova montagem, que abre temporada hoje, guarda suas particularidades. Aqui, não existe um único lugar a ser explorado. Há um bairro inteiro. O público também não está encerrado em uma sala. Ao contrário. Por quase um quilômetro, precisa seguir os atores. Faz um percurso que inclui uma galeria comercial, ruas desertas e um teatro abandonado. Submerge em uma improvável e desconhecida metrópole em ruínas.

Outra diferença, explica o diretor Antonio Araujo, é a relação que Bom Retiro 958 Metros estabeleceu com esse cenário. “O sentido nasce do próprio diálogo entre esses espaços. É uma obra que coloca em confronto diferentes lugares”, diz ele. “Em outros espetáculos havia um longo tempo de ensaio prévio antes que entrássemos nos espaços de apresentação. Agora, não. É uma mudança gritante. Tudo foi criado na rua, nesses lugares.”

Foi a partir das cenas improvisadas no bairro que o escritor Joca Reiners Terron construiu o texto do espetáculo. Um processo semelhante àquele experimentado por outros ficcionistas que já trabalharam ao lado do Vertigem, como Fernando Bonassi (Apocalipse 1,11) e Bernardo Carvalho (BR-3).

Os personagens que surgem desse primeiro experimento dramatúrgico de Terron são figuras reconhecíveis: uma consumidora voraz, uma costureira boliviana, um viciado em crack. Em todos eles, porém, não está um decalque da realidade. Ou mera alegoria. À medida que o percurso se aprofunda, esses seres também têm reforçados os seus contornos fantasmagóricos. Tornam-se espectros a vagar.

A ação começa diante de um pequeno shopping center, típica galeria comercial do Bom Retiro, com dezenas de lojas de confecção. Eis um chamariz para a questão do consumo desenfreado, para o descarte de humanos e objetos sem serventia. É, porém, quando sai desse espaço fechado e asséptico, e ganha as ruas ermas e escuras, que a peça encontra sua potência maior. Na fricção entre a cena e o real. A presença de um morador de rua, a intervenção de um policial desavisado, a passagem de algum carro. Pequenos acontecimentos que acabam alterando as feições da montagem a cada apresentação. “Existe um controle relativo do que acontece. O espetáculo está aberto para o imprevisto”, observa Araujo.

A agitação que toma o bairro enquanto o comércio está aberto cessa quando o dia termina. O alarido de lojistas e consumidores dá lugar ao silêncio. Ou, antes, a um falso silêncio. Por trás da quietude aparente existe uma vida que não se extingue, com catadores de papelão e costureiras que trabalham noite adentro. “Não estamos mostrando o Bom Retiro que todo mundo conhece. Mas um lado lunar, onírico”, diz o encenador, que nos arrasta para dentro de um pesadelo.

Aprofunda-se aqui o caráter político da pesquisa do grupo. Não que o traço já não aparecesse. Com evidente carga simbólica, os espaços escolhidos pela companhia ao longo destas duas décadas não deixam dúvida sobre o sentido de sua arte. Mas a procura por intervir diretamente na realidade ganha vulto. Escolhe a cidade, e suas contradições, como eixo preferencial. “É um interesse nosso desde o primeiro trabalho, quando ocupamos a igreja de Santa Ifigênia. Ocupar lugares esquecidos e chamar atenção para eles. Além disso, temos outros coletivos tomando caminhos parecidos”, comenta o diretor. Uma referência a grupos como a Cia. São Jorge de Variedades, Teatro de Narradores e Folias - todos com pesquisas relacionadas à problemática urbana.

PRESTE ATENÇÃO

1. Na luz de Guilherme Bofanti. Esse antigo colaborador do Vertigem continua a impressionar pela maneira como intervém nos espaços

2. Nos figurinos dos 15 intérpretes, do premiado estilista Marcelo Sommer 

3. Na rádio móvel, que serve para conduzir o público através dos diferentes espaços de encenação do espetáculo 

Tudo o que sabemos sobre:
teatroVertigem

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.