Para entender um herói

Em Diário de Uma Busca, Flávia Castro revê a morte misteriosa do pai

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2011 | 00h00

Nos últimos anos, o cinema brasileiro - nunca com a intensidade do argentino, por exemplo - tem enfocado o tema da guerrilha, durante o regime militar. As histórias, em geral, romantizam os guerrilheiros, tentam transformá-los em heróis. Duas mulheres retraçam o período na contracorrente dessa tendência. Flávia Castro, em Diário de Uma Busca, e Lúcia Murat, em Uma Longa Viagem, buscam nas próprias famílias o material para falar dos anti-heróis. Flávia foi premiada em Gramado, em 2010. Era jurada neste ano. Lúcia foi a grande vitoriosa de 2011, com o Kikito de melhor filme.

Diário de Uma Busca estreia hoje em São Paulo, Rio e outras importantes praças do País. O filme já está em cartaz em Porto Alegre há pelo menos duas semanas. Você pode até não gostar desses filmes, mas são importantes para a própria compreensão da história do Brasil. As diretoras, falando do pessoal, querem tocar o universal. Flávia fala de seu pai guerrilheiro, Celso Afonso Gay de Castro, que morreu em Porto Alegre, em 1984, baleado no interior do apartamento pertencente a um ex-nazista, supostamente durante um assalto. O laudo oficial concluiu que foi suicídio, mas um legista levanta dúvidas. O próprio assalto permanece muito mal explicado. Lúcia fala do irmão, que nem ligação com a guerrilha tinha. Ela era a guerrilheira, ele passou drogado pelos anos de chumbo.

Flávia tinha 19 anos quando seu pai morreu. Na época, ela chegou a escrever um roteiro de ficção sobre o assunto. "Desde então, nunca parei de escrever sobre meu pai. O filme surgiu mais tarde, em 2000. E surgiu por causa do Joca, meu irmão. Ele tinha só 4 anos, na época. Queria contar essa história para ele. Aproveitando que estávamos os três, minha irmã, Joca e eu, gravei os depoimentos com uma câmera emprestada. Aquilo foi o estopim. Escrevi um roteiro detalhado, querendo investigar as circunstâncias da morte. Foi ela que me deu vontade de fazer o filme e a busca é relacionada a isso. O filme vai tão longe quanto conseguimos ir neste sentido, mas terminou virando outra busca. A da vida do pai, da nossa vida. Terminou sendo um filme sobre família."

A mãe é dura na abordagem do ex-marido, o irmão é o elo frágil da história. Percebe-se o seu incômodo com a desmistificação desse pai. "Em todos os lugares onde tenho mostrado Diário, o Joca é sempre a entrada do público para o filme. E as pessoas me perguntam sobre ele - como está, o que faz? Joca é quem permite a integração emocional dos espectadores." Flávia tem plena consciência disso, mas ela não acha que seu filme seja sobre uma família dividida. Ela entende, de qualquer maneira, as objeções do repórter. O que o incomoda não é tanto a história de uma derrota, do não herói. O repórter é pai, horroriza-o a ideias de que sua filha possa olhá-lo com esse distanciamento.

Quando O Diário passou em Gramado, Flávia estava tão obcecada com o filme que o pai virara um personagem, somente. Aquilo fez com que o incômodo fosse dela. Com o tempo, ela foi recuperando o pai. Acha que conseguiu um meio-termo. "Sou crítica, mostro que ele não foi um herói, mas a imagem não é a de um porra-louca." Ela se impressiona com as reações do público, dos jovens, principalmente. "Eles não têm nada a ver com o período, mas fazem as suas associações. Outro dia um garoto veio me falar do pai dele. Não tinha nada a ver com o meu, mas para ele tinha tudo."

Foram anos de dedicação ao projeto. O mais difícil foi arranjar o dinheiro. Flávia gravou com os irmãos em 2002. O dinheiro só veio bem mais tarde, e começou com um produtor francês. Vieram depois os apoiadores brasileiros, para que ela pudesse filmar em 2007. Ela filmou na Argentina, no Chile, no Uruguai (que ficou fora). Foi ao Paraguai. Deixou a parte da França para o fim. Pronto, Diário de Uma Busca participou de muitos festivais no País e no exterior. Em Biarritz, o júri presidido pelo documentarista Nicolas Philibert lhe deu o prêmio especial. Flávia amou a justificativa - "ela ressalta que sou uma realizadora jovem, de um primeiro filme, e destaca a qualidade cinematográfica". É o que pergunta ao repórter - "mas tu não gosta do meu filme nem como cinema?".

A adesão talvez fosse maior se Diário fosse ficção, e não documentário. "Entendo. O documentário coloca sempre a questão ética, a questão do poder do diretor sobre o personagem." O curioso é que, agora, com o filme pronto, um amigo cineasta lhe propôs que fizessem outro filme sobre o pai, mas como ficção. "Não dá mais. Estamos em outro projeto." As camadas, como Flávia diz, são muitas. Ninguém fala do pai impunemente. Um dos momentos emotivos do filme é em Santiago. Flávia filma a fachada da casa em que morou. O novo proprietário se incomoda, ameaça chamar a polícia. Ela fala do filme. Ele pergunta se o pai de Flávia é importante. "Para mim, é", Flávia responde. Poderia acrescentar, para o bem e para o mal.

DIÁRIO DE UMA BUSCA

Direção: Flávia Castro.

Gênero: Documentário

(Brasil/2010, 104 minutos).

Censura: 10 anos.

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