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Em defesa dos gosmilhos

Numa crônica de 1958, o poeta Manuel Bandeira discorre sobre uma questão de inegável importância: o fato de ninguém saber mais o nome das plantas, em especial das flores. 

Vanessa Barbara, O Estado de S. Paulo

21 de setembro de 2015 | 02h00

Ele conta que, em uma visita de Anatole France ao País, o escritor francês fez questão de saber o nome de cada florzinha que lhe aparecia, para constrangimento de seu anfitrião, o diplomata cearense Thomaz Lopes, que de nada sabia. 

Tomado pela pressão do momento, Lopes passou a inventar nomes: uma florzinha vermelha era “sangue-de-Vênus”, outra roxa era “pranto-de-viúva” e assim por diante, o que lhe rendeu fartos elogios do francês, impressionado com a imaginação poético-botânica dos brasileiros. (Em nota de rodapé, observe-se que Thomaz Lopes foi também poeta e autor do Hino do Ceará, no qual se exclama: “Mudem-se em flor as pedras dos caminhos!”)

Em sua crônica, Bandeira afirma que, certa vez, reparou numa florzinha modesta e bonita, “mais modesta do que todas as outras”, no jardim de uma pensão em Petrópolis. Quis mencioná-la em um poema e perguntou o nome da planta ao jardineiro, que tascou logo: “gosmilho”. O autor não se fez de rogado e usou o termo em um verso de Pensão Familiar, no qual se lê: “O sol acaba de crestar os gosmilhos que murcharam”. 

Décadas depois, Bandeira foi interpelado por um professor norte-americano, que procurou “gosmilho” nos dicionários e não achou. Como qualquer leitor exaltado, foi tirar satisfações com o autor. O poeta ainda tentou pedir socorro a um amigo de Petrópolis, mas tudo indicava que a palavra não existia e que era, afinal, uma boa e sonora invenção botânica, dessas de impressionar Anatole France. 

Fico pensando se a invenção foi do jardineiro, pressionado pelo calor da hora, ou se foi de Bandeira, que acabou arquitetando uma crônica inteira para justificar o sonoro neologismo. 

Fato é que “gosmilho” é uma palavra digna de entrar para os nossos dicionários, assim como o fizeram outros nomes de plantas que devem ter sido criados por um jardineiro displicente com alma de poeta, e que, no fim, viraram verbetes: de adjetivos sugestivos como “suculenta” e “gloriosa” a substantivos compostos como “dama-da-noite”, “brinco-de-princesa”, “espada-de-são-jorge”, “amansa-senhor”, “dinheiro-em-penca” e “comigo-ninguém-pode”. 

Até a popular “maria-sem-vergonha” não possui apenas um nome, mas também é conhecida como “beijo-de-frade” e “não-me-toques”, num exemplo vivo de que brasileiro pode até não saber a nomenclatura oficial das coisas, mas, na dúvida, vai inventar melhor do que ninguém. 

A ironia final: em Pension de Famille, o tradutor francês de Manuel Bandeira trocou a misteriosa “gosmilhos” por “jasmins”. Já a tradutora americana, em Two-star Hotel, optou por “four o’clocks”, uma florzinha que chamamos de “maravilha”. 

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