Ernesto Rodrigues/AE-24/11/2008
Ernesto Rodrigues/AE-24/11/2008

Em defesa do direito à heresia e dissidência

Viúva fala de Saramago, de suas ideias afiadas e sua honestidade extremada

Entrevista com

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2010 | 00h00

A voz soava rouca, o corpo exibia magreza aguda, mas as ideias continuavam afiadas - na última vez que esteve no Brasil, em 2008, o escritor português José Saramago ainda convalescia de uma doença que quase o matou na época. Mesmo assim, fez questão de vir lançar A Viagem do Elefante. "Ele amava os brasileiros", conta Pilar Del Río, com quem o autor, que morreu em junho aos 87 anos, foi casado. Ela participa hoje da homenagem a Saramago, no Sesc Vila Mariana, reunindo leitores ilustres, como Chico Buarque de Holanda, além da direção de Daniela Thomas.

O evento marca também o lançamento de As Palavras de Saramago (Companhia das Letras), seleção de trechos de entrevistas. Sobre a importância dessas palavras, Pilar respondeu, por e-mail, às seguintes perguntas.

Em uma entrevista ao Estado quando da morte de Saramago, o crítico americano Harold Bloom disse que o escritor português se tornou um homem iluminado ao conhecer a senhora e ao se mudar para as Canárias.

Agradeço as palavras do professor Bloom, mas confesso não ter influenciado nenhuma obra de Saramago. Pode ter ocorrido - porque todos nos influenciamos mutuamente - em aspectos concretos da vida prática, mas não na obra: escrever é um ato solitário, o autor utiliza sua bagagem pessoal, em silêncio, sem intromissões. Fechado em si mesmo. E, no caso de Saramago, com uma honestidade extremada, maravilhosa.

A relação de vocês contrastava com a frieza em muitos temas dos livros dele e até com a sua descrença na humanidade. Como explicar isso?

Sua vida pessoal não tinha nenhuma relação com sua visão de mundo e suas reflexões. Saramago não reduzia a obra e a vida a seu pequeno entorno, mas além do lar estava o inferno sobre o qual ele refletia, inferno que, para muitos, é a vida, quando poderia ser melhor. Saramago não entendia como o homem, capaz de chegar a Marte, não conseguia resolver o problema da fome ou da falta de água em diversos continentes. Ou que houvesse depredadores entre os cidadãos, tão variados, mas sempre infames.

Apesar de sua veemente posição política (ele se descrevia como um "comunista hormonal"), Saramago não foi um autor de uma obra abertamente política, não?

Saramago não utilizava a literatura para passar mensagens políticas. Era um cidadão comprometido com uma forma de ver e analisar o mundo, tinha causas e partidos, mas isso não influenciava seu trabalho literário, ainda que fosse evidente que seus livros não são de um conservador de direita.

Ele sempre pareceu estar feliz quando vinha ao Brasil. Qual a relação dele com o País?

Uma boa relação porque sempre se sentia rodeado de amigos e, no Brasil, tinha muitos, além de muitos leitores. O que não significa que não se sentisse incomodado com algumas situações, que a pobreza não lhe despertasse um sentido de urgência, que os sem-terra não o motivassem, que não o desgostasse o abismo entre uns e outros. Ele ficou contente com a escolha do Rio para ser sede da Olimpíada porque, dizia, incentivaria o trabalho. Para Saramago, esse direito era questão indiscutível. Politicamente, acompanhava de perto o que se passava e sempre, a despeito das conquistas internacionais do País, esperava por mais e melhores notícias internas. Gostava muito do Brasil e demonstrou isso vindo aqui para o lançamento de A Viagem do Elefante, quando quase já nem podia com a própria alma. Amava, sobretudo, muitos brasileiros.

Haveria um livro de sua preferência entre os escritos por Saramago? Por quê?

Viagem a Portugal. Porque ali cabem Saramago e Portugal. E estamos todos, seres humanos, representados.

Qual é o principal legado de José Saramago, em sua opinião?

Seus livros, que são monumentos. Mas, à margem deles, que o próprio Bloom qualificou como você sabe e eu, por pudor, não repito, sobressai sua atitude diante do mundo. Era um transgressor, que não se calou para não incomodar. Dizia sempre o que pensava, propôs questões fundamentais e tratou de encontrar respostas. Afirmou que faltavam dois pontos à Declaração Universal dos Direitos Humanos: o direito à heresia e à dissidência. Ser dissidente para não se acomodar. Ser herético para não ser calado por dogmas. Um belo plano, não?

Acompanhe a linha do tempo de Saramago

http://www.estadao.com.br/especiais/a-trajetoria-literaria-de-jose-saramago,106610.htm

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