Em defesa do barroco

Christopher Johnson, professor de literatura na Universidade Harvard, examina a noção de ''excesso'' na arte do século 17 e mostra que ele foi o seu traço mais característico e vulnerável

Mario Higa, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2010 | 00h00

Renascença e Barroco, do suíço Henrich Wölfflin (1864-1945), é considerado o ensaio divisor de águas na história da recepção crítica da arte barroca. Publicado em 1888, o livro reavalia a produção artística do século 17, defendendo-a do reducionismo hostil de que fora vítima. Desde então, as ideias de Wölfflin ganharam adeptos cujos trabalhos também contribuíram para uma percepção renovada da estética seiscentista: Benjamin, Dámaso Alonso, Rousset, Wellek e mais recentemente Gilles Deleuze e Buci-Glucksmann estão entre os mais influentes. Passado mais de um século de revisionismo, o barroco não precisa mais de defensores.

No entanto, para o professor de literatura de Harvard Christopher Johnson, a bibliografia continha uma lacuna injustificável; não havia um estudo de fôlego que discutisse em profundidade um dos tópicos centrais da poética do barroco: a noção de excesso e sua figuração no discurso da época. Para suprir essa falta, Johnson escreveu Hyperboles: The Rhetoric of Excess in Baroque Literature and Thought (Hipérbole: A Retórica do Excesso na Literatura e no Pensamento Barrocos).

Para Johnson, a excessividade foi o traço mais característico e também o mais vulnerável do estilo barroco. Críticos de formação clássica no século 18 continuamente condenaram o maneirismo seiscentista por seu modo hiperbólico de representação. Por outro lado, se a tendência ao exagero em um dado momento pôs o barroco em descrédito, em outro, emprestou-lhe credibilidade.

Essa flutuação histórica, sempre segundo Christopher Johnson, reside em potência na hipérbole, figura retórica de amplificação, que, entre as prestigiadas do período, é a mais ambivalente: "O manipulador da hipérbole é como um trapezista sem rede, ora voa às alturas mais elevadas, ora desaba no ridículo mais ignominioso", afirma Johnson.

Hyperboles organiza-se em cinco partes, que se subdividem em 16 capítulos. Na primeira, composta dos três primeiros capítulos, o autor repassa e comenta o conceito de hipérbole segundo pensadores da antiguidade clássica, do Renascimento e do Barroco. Desde Aristóteles, Longino, Cícero, Quintiliano, passando por Erasmo de Roterdã, J.C. Scaliger, chegando enfim a Tesauro e Gracián, Johnson apresenta um conjunto rico e variado de especulações teóricas que buscam definir conceito e funções, limitações e possibilidades semânticas da hipérbole.

Os capítulos de 4 a 7, que compreendem a segunda parte do livro, são dedicados à poesia barroca de língua espanhola. Pelo método da leitura cerrada, Johnson discorre sobre o emprego e os efeitos da hipérbole na Fábula de Polifemo y Galatea e nas Soledades de Gôngora, no lirismo petrarquista de Quevedo e no poema Primero Sueño, de Sóror Juana. As hipérboles do King Lear, de Shakespeare, em confronto com o teatro de Sêneca e sua recepção no Renascimento são analisados nos capítulos de 8 a 11, que formam a terceira parte do ensaio. A quarta parte, que ocupa os capítulos de 12 a 15, examina o discurso filosófico. Descartes e a dúvida hiperbólica, Pascal e a hipérbole como recurso retórico negativo (que amplifica a ideia de insuficiência do conhecimento empírico) são alguns dos temas abordados nessa parte.

O último capítulo coincide com a última parte do livro. Nele, três filósofos pós-barrocos são abordados em suas relações com o que Johnson denomina "razão hiperbólica": Kant, Wittgenstein e Stanley Cavell, ou, de modo mais específico, o sublime kantiano na teoria da linguagem de Wittgeinstein, à luz da interpretação de Cavell. Aqui, Johnson mostra que nas dobras do racionalismo moderno permanecem espaços conceituais e retóricos de hiperdimensão.

O capítulo de Hyperboles que fala mais de perto ao leitor de língua portuguesa é o 5, sobre Gôngora. Ao comentar a Fábula de Polifemo y Galatea, Johnson aproxima o ciclope gongorino do Adamastor de Camões, cujo modelo de "gigantomaquia" e de "hipérbole simultaneamente ética, histórica, mítica e cosmográfica" serviu de fonte para o escritor espanhol - ao lado de outras já bastante conhecidas (Homero, Virgílio, Ovídio).

Em outro momento do capítulo, Johnson discute a cena da primeira Soledad, em que um pastor ancião toma a palavra e condena com veemência a febre das navegações e os valores morais, como a ambição, derivados da aventura expansionista. Como termo de comparação, Johnson elege a célebre fala do Velho do Restelo, em Os Lusíadas, cujo tom grandioso e revestimento ideológico ressoam no discurso do pastor gongorino.

Hyperboles conquista o leitor exigente com sua erudição ampla, clara, articulada, regular e penetrante. Que faz bem aos dias de hoje. Em tempos de culturalismo dominante nos departamentos de literatura das universidades americanas (Harvard é exceção), culturalismo que em sua versão menos nobre despreza a leitura cerrada por considerá-la elitista e valoriza aproximações do tipo Polifemo/King Kong, o antídoto de Johnson, digo, seu livro, chega em excelente hora.

MARIO HIGA É PROFESSOR DE LITERATURA LUSO-BRASILEIRA NO MIDDLEBURY COLLEGE, EM VERMONT (EUA)

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