Em defesa da função social da arte

Domingos Oliveira se prepara para exibição de novo filme no Festival de Gramado e dá curso a roteiristas

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

04 Julho 2013 | 02h09

Quando, aos 76 anos, Domingos Oliveira, um dos mais profícuos autores do teatro e do cinema brasileiros, viu-se diante de uma banca examinadora, que decidiria se seu novo projeto de longa mereceria ser aprovado no concurso do Fundo Setorial Audiovisual, pensou em uma única forma de convencê-los. "Se estou aqui, com essa idade, dando esse duro, que é enfrentar vocês, que vão me avaliar, é porque tenho algo a dizer, não?", afirmou.

Em fevereiro, Oliveira foi duplamente premiado e em breve vai dizer muito em Eu me Recordo, adaptação de sua mais célebre peça, Assunto de Família (Do Fundo do Lago Escuro), com Fernanda Montenegro, que ele roda em setembro, e em Barata Ribeiro, 716, que filma em seguida. Antes, em agosto, leva seu mais recente filme, O Primeiro Dia de Um Ano Qualquer, ao Festival de Gramado. Além disso, Domingos chega a São Paulo na próxima semana para ministrar o curso Lições de Liberdade, no Centro Cultural b_arco, de 12 a 14 de julho.

"Não dou curso há muito tempo. Há tempo de aprender e tempo de ensinar. Tenho ideias que fui criando durante a vida, sobre teatro, cinema. Está na hora de transmiti-las", diz o diretor, em conversa com o Estado.

Sobre o que é O Primeiro Dia?

O primeiro dia do ano, numa casa de campo, do amanhecer ao anoitecer. Os personagens estão em crise e chegam a uma conclusão: o mundo não vai acabar. O filme fala sobre expectativas.

Por que batizar o curso de

Lições de Liberdade?

Não me acho em condições de ser seguido. Dou lições e impressões. Meu curso privilegia a dramaturgia porque a escrita domina o teatro e o cinema. Falo do conceito humano da arte. O teatro sempre foi feito em qualquer canto, em que o humano, o trabalho dos atores, vale mais. Essa ideia me atrai muito. Hoje não é mais possível fazer teatro só assim.

Ficou muito caro?

Cinema precisa de mais estrutura. Teatro não necessariamente. Mas hoje precisa de dinheiro investido. O público se acostumou com os espetáculos mais caros, que são produzidos por meio das leis, e produzir fica mais difícil. Cinema já é insuportável. Virou negócio.

Como viabiliza filmes?

Tenho seis roteiros prontos. O Primeiro Dia e Paixão e Acaso rodei no primeiro semestre de 2012 em esquema de baixo orçamento. Adoro fazer filmes como Godard e Truffaut. Sou de uma geração que descende da nouvelle vague. A nova geração descende da publicidade.

E O Primeiro Dia?

Fiz com a verba da venda da exibição do longa no Canal Brasil. A Maitê Proença emprestou a casa dela. Apareceram pessoas que têm vontade de trabalhar comigo. Não improviso nada, mas adoro a interferência do real.

E para o próximo?

Filmo em setembro. É a adaptação para o cinema de Do Fundo do Lago Escuro. Minha peça mais consagrada, montada pela primeira vez em 1980, com Fernando Torres e Fernanda Montenegro, que fazia minha mãe, e direção do Paulo José. Há dois anos, eu montei e dirigi.

E ela vai filmá-lo?

A Fernanda vai fazer agora Dona Mocinha. Conseguimos levantar R$1,7 mi. Só não vai se chamar Do Fundo do Lago Escuro porque este nome tem 'fundo', tem 'escuro', palavras proibidas pelo marketing. Então, vai ser a tradução meio direta do filme do Fellini: Eu me Recordo.

É o seu Amarcord?

Sim. É minha infância. E é teatro mesmo, com a possibilidade do tempo. Sempre dizem que faço teatro filmado. Eu me rebelei e combati isso, tentei transformar a peça em cinema de verdade.

Conseguiu?

Sim. Já levei várias peças para o cinema. Separações, Amores. No teatro, a palavra é soberana. No cinema, o ator, sem falar, diz muito. A câmera diz muito. É preciso dizer menos. Eu era muito verbal. Tentei transpor para essa linguagem. E a outra coisa é o que chamo de tempo. Cinema é o mestre do tempo.

Faltam roteiristas?

Precisamos formar mais gente. Dirigir e atuar, se você tiver talento, ainda é possível fazer no intuitivo. Mas para escrever é preciso estudar. Teatro sem drama não é teatro.

É a favor de um Ministério

da Arte?

Vivo lutando por isso. Tem até um documento, falando da criação de um ministério que cuide dessa coisa quase indefinível que é a arte. Arte não é cultura. A cultura pode estar indo bem, mas a arte estar péssima. E o que faz o mundo é a arte.

Está animado com o atual

cenário do cinema brasileiro?

Não. Está difícil levantar verba. Temos cada vez mais paixão pelas horríveis comédias que têm sido feitas, que não têm a menor intenção de desvendar o mistério da vida, de melhorar a vida de quem vê, que é a função social da arte. Arte é coisa de autoajuda. Se o filme me faz bem, gosto. Mesmo que eu sofra.

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