Em defesa da classe C

Ah, o desprezo pela turba.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2012 | 02h07

Na semana passada, o Partido Republicano ganhou um presente de seu candidato derrotado à presidência. Num telefonema com doadores de campanha, gravado no viva voz, Mitt Romney explicou que perdera a eleição porque Barack Obama comprou os votos. "Deu presentes", disse, para minorias étnicas, como latinos e negros. E deu anticoncepcionais a jovens universitárias. Como exemplo de um presentão para a baixa classe média, Romney citou a reforma do seguro saúde, a iniciativa doméstica mais importante do primeiro mandato de Obama. Acesso à assistência de saúde como privilégio e não direito na maior economia do mundo? Os republicanos quase se pisotearam na correria para declarar sua falsa indignação com o defunto político ainda quente: que horror insultar o voto de latinos e jovens! Afinal, são os eleitores sem os quais o partido está fadado à extinção.

O desprezo por metade do país, "os tomadores", já havia sido revelado naquele vídeo gravado secretamente, em que, diante de um grupo de doadores milionários, Romney disse que nem adiantava fazer campanha para quem se beneficia de programas de governo. Seu plano de governo era dar outro tipo de presente. Trilhões de dólares de redução de imposto de renda para a fatia do país que contribuiu para a sua campanha. Mas, rei posto, rei morto e o leitor há de me fazer prometer que só vou usar a palavra "mitt" aqui no futuro se estiver me referindo à luva de jogador de beisebol.

O desprezo expressado por, perdão, é a última vez, Mitt, me fez pensar em outro tipo de desprezo, que, se fosse capturado em gravação, traria desconforto a muita gente que se diz em outro território do espectro político brasileiro. É o desprezo pela classe C, os 30 milhões que galgaram degraus para sair da pobreza.

Uma pesquisa recente revelou que mais da metade dos brasileiros da classe A e B não se conforma em comprar os mesmos produtos agora acessíveis à classe C e até sugere que deveria haver versões de produtos para rico e para pobre. O ressentimento é enorme no caso de viagens aéreas. Como se os aeroportos lotados fossem culpa de quem leva a família de férias pela primeira vez. Não preciso ser gravada em segredo: minha última viagem ao Brasil foi infernal, com uma família de cinco falando a noite inteira e tirando fotos com flash. Quando coloquei os pés num avião pela primeira vez, aos 19 anos, graças a uma passagem rachada entre duas pessoas da minha família, eu vinha de uma classe média cujo acesso à educação era maior, uma classe média que sonhava com menos gadgets e mais visitas ao Louvre. Ou seja, quando embarquei, já era produto de uma classe média que não costumava falar aos berros em avião.

Mas é na cultura e na mídia que está havendo o desconforto mais consequente.

Na década de 90, entrevistei, para uma revista americana, o talentoso Gilberto Braga. A reportagem era sobre o sucesso da telenovelas brasileiras no exterior. Para ilustrar o poder da telenovela, Gilberto comentou que as empregadas domésticas não tinham mais namorado e sim uma "relação". Mas Gilberto não desprezava seu espectador. Trabalhava num ambiente em que podia colocar dramas freudianos em horário nobre e usar certo tipo de jargão sofisticado. Não escrevo com o dedo ao vento para saber qual a direção do mercado. Mas, numa viagem ao Brasil em que ouvi muitas queixas sobre a banalização da nossa cultura, imposta pela ascensão da classe C, ouvi o seguinte de uma pessoa em posição executiva privilegiada na produção de TV: temos que atingir um público mais diverso mas não estou procurando baixaria. O problema é que boa parte do que se produz não é para a classe A, B, ou C. É pura autorreferência e desdém pelo público. A pessoa prefere ser congratulada por seus pares no restaurante caríssimo que frequenta do que produzir conteúdo relevante.

Há 10 anos, visitei o poeta e romancista português Vasco Graça Moura em sua quinta, perto de Lisboa. Nos anos 80, ele havia sido executivo da TV portuguesa e comprava nossas telenovelas. A palavra elitista cairia sobre ele como uma luva. Ele me recebeu em sua vasta biblioteca, fumando uma cigarrilha e completava o traje impecável com um foulard de seda. Fiz uma pergunta idiota. Como o senhor conciliava o seu enorme apetite intelectual com a programação de telenovelas? O premiado tradutor de Goethe e Dante deu uma baforada e disse: "Minha filha, a chegada das telenovelas brasileiras foi boa para a literatura portuguesa. Nossos romances estavam empacados no pós-estruturalismo. De repente, voltamos a contar histórias, com começo, meio e fim".

Prefiro ser acordada num voo para o Brasil, se isto é sinal de que tenho chance de contar histórias para mais brasileiros. Enquanto torço para que eles tenham acesso à educação que me permitiu chegar aqui.

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