Em defesa da canção contemporânea

Patrícia

O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2012 | 03h07

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No fim do ano assistimos na TV Ivete Sangalo ladeada por dois dos maiores ícones vivos da música popular, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Grande parte do repertório de autoria deles com destaque para a belíssima Atrás da Porta, de Chico Buarque, como um dos pontos altos do programa. Ivete saiu- se bem. Cantou bonito, na intenção certa e emocionou plateia e colegas, mesmo correndo o risco iminente da comparação com Elis Regina. O desfile de clássicos acabou suscitando um debate acalorado entre meus amigos e eu sobre a natureza genial dos compositores ali presentes e a novíssima geração que estamos vendo surgir. É lugar-comum dizer que não se fazem mais canções como aquelas, que a poesia contida na produção contemporânea é rasa se comparada ao lirismo de Drão, Super-homem, Amor Até o Fim, Tá Combinado, Tigresa, para citar algumas que fizeram parte do especial e, indo mais longe, o que dizer dos versos de Vinicius de Moraes, de Lupicínio, Cartola e outros mestres.

Bom, meu argumento a favor da canção contemporânea é simples, toda canção reflete seu tempo, tem contexto histórico e é a partir daí que é possível fazer juízo de valor. Como comparar a dor de cotovelo de um Antônio Maria que viveu nos anos 50, quando desfazer um casamento era um crime com punição social máxima, com a leveza de um jovem como Thiago Pethit que vive num tempo com toda a liberdade de amar que quiser? Vamos aos versos: "Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor...", Antônio Maria; ou Valsa de Eurídice, de Tom Jobim e Vinicius: "Oh, meu amado não parta, não parta de mim, ah, uma ternura que não tem fim..." Agora, Mapa-múndi, de Thiago Pethit: "Me escreva uma carta sem remetente, só o necessário e se está contente, tente lembrar quais eram os planos, se nada mudou com o passar dos anos... e me pergunte o que será do nosso amor..." Para ser menos radical na diferença, vamos para Jards Macalé e Wally Salomão com Vapor Barato nos anos 70, quando a liberdade era uma bandeira: "Vou descendo por todas as ruas e vou tomar aquele velho navio, eu não preciso de muito dinheiro, graças a Deus, e não me importa, honey..." Voltando algumas décadas, vamos lembrar de outro tipo de romance retratado na belíssima Último Desejo, de Noel Rosa "Nosso amor que não esqueço e que teve o seu começo numa festa de São João, morre hoje sem foguete, sem retrato, sem bilhete, sem luar, sem violão..." Para nossa tristeza, quem é que começa nestes anos 2000 e tanto uma história de amor com retrato e bilhete?

No meio da discussão apareceu uma outra questão bastante comum: onde estão os gênios desta geração? Se temos Chico, Gil, Caetano, Jobim, Noel, o que vem agora? O que virá depois? Continuo com meu determinismo histórico, não precisamos de gênios. Temos excelentes compositores, e até em maior número do que nas gerações anteriores. Com a disseminação da música pela internet, com a facilidade de acesso aos meios de produção, não há três ou quatro grandes nomes para a década, mas muitos. Listo alguns artistas com ótimas letras: o já citado Thiago Pethit, Rodrigo Campos, Tulipa Ruiz, Marcelo Camelo, Lirinha, Ava Rocha, Junio Barreto. Numa época em que casar e descasar é sazonal, o amor é Só Sei Dançar com Você: "Você sacou a minha esquizofrenia e maneirou na condução, toda vez que eu errava você dizia pra eu me soltar porque você me conduzia ...", como canta Tulipa. Os anos 50 foram difíceis para o amor; os 60 e 70, para a liberdade; os 80, uma espécie de compasso de espera; nos anos 90 se consolida a diversidade e agora colhemos os frutos de tudo isso. Tem poesia com profundidade e erudição nos versos de Lirinha, mas também uma jovem que dança para espantar a dor. Tem o fim da solidão de Marcelo Camelo e o amanhecer espantado com os preços da cidade de Ava Rocha. Só que é espalhado, diluído, solto por aí. Não está na TV.

Mais que nunca é com ouvido esperto e curioso que se ouve e se descobre a boa música. Como disse uma vez Arnaldo Antunes, não tem por que termos saudades dos movimentos. O melhor é sempre o que nos emociona e de maneira geral o que mais emociona é o que nos traduz. Cada canção a seu tempo.

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