Em debate os estigmas do teatro infantil

No conjunto das artes produzidasheroicamente no País, o teatro infantil é tido como um dossegmentos mais sofridos, mais à margem da margem da margem. Hápreconceito por todos os lados. Como livrar as produçõesinfantis desse estigma de "pecinhas"? Como melhorar aqualidade do que se produz para as crianças nos palcosbrasileiros, para que diminua esse preconceito? No mês passado, um primeiro e solitário passo foi dadono sentido de discutir esse assunto com quem está à frente doteatro para crianças e jovens em São Paulo. Por iniciativa daempresa Panamco, que patrocina o único prêmio voltadoexclusivamente para teatro infantil na cidade, o ator Ewerton deCastro, também jurado da premiação, coordenou o primeiro debatede série Encontros do Teatro Jovem. A idéia da Panamco é reunirmensalmente os profissionais do setor para troca de idéias sobreas dificuldades e os preconceitos que nivelam por baixo, emuitas vezes com razão, o teatro infantil no Brasil. O próximoencontro está previsto para o dia 6, no Café Aprendiz, na VilaMadalena. "Acho que a realidade do teatro infantil hoje é aseguinte: por que gastar tempo escrevendo um texto, batalhar asua encenação, correr o risco de ser mal aproveitado por umadireção duvidosa e interpretações amadoras e além do mais ter umretorno financeiro ridículo, ou até mesmo nulo?", comentaEwerton. "O teatro infantil está em pleno descrédito, sobretudono que se refere ao retorno financeiro." Assim como acontece com a literatura para jovens e paracrianças, a dramaturgia infanto-juvenil também é vista comumentede forma errada, equivocada, ou seja, a sociedade atribui àspeças infantis um poder que elas não têm e não precisam ter: opoder de transformar as crianças em melhores crianças, emfelizes crianças. Esse tipo de boa intenção só serve paraembotar a criatividade de um autor e diminuir o valor artísticode seu trabalho.O teatro para jovens e crianças pode atéconseguir complementar a tarefa dos pais e dos educadores, masdesde que não abra mão de sua condição de obra de arte, ou seja,se o artista estiver consciente das boas intenções, mas livre docompromisso de transmiti-las a todo custo. Um bom texto de dramaturgia para jovens e crianças não éo que nasce querendo manipular, formar, educar, orientar,catequizar, mas o texto que faz disso tudo uma decorrência desua condição livre de obra de arte. Oferecendo liberdade emforma de arte é que se consegue formar pensadores, estimularreflexões, derrubar conformismos. E fazer teatro infantil de olho na liberdade nãosignifica pregar a bagunça, o descontrole, as liberalidades, asinconseqüências. Não significa atropelar os cuidados com o serhumano em formação. Significa apenas criar uma dramaturgiainfantil menos rotineira, menos aborrecida. Significa ousar mais, pensar muito mais nos quintais do que nas salas de aula. Hámuito o que se fazer e se criar em cima de um palco. Sobretudo,há muito ainda o que se arriscar pisando em um palco. Fazer umacriança se espantar diante das infinitas possibilidades do jogoteatral significa fazê-la compreender que há infinitaspossibilidades no jogo da vida.

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