Em debate, a violência da televisão

A violência na mídia televisiva é um fenômeno global, que está preocupando educadores de todo o mundo no que diz respeito à formação ética e moral de crianças e adolescentes. Estudo feito pela Unesco e publicado no livro "A criança e a violência na mídia" (organizado pelas escritoras Ulla Carlsson e Cecilia Von Feilitzen e publicado pela Cortez Editora), constata que um norte-americano, ao atingir os 18 anos, terá presenciado cerca de 18 mil assassinatos representados na televisão em toda sua vida. No Brasil, a situação não é tão diferente. A violência começa a ser exposta justamente em programas considerados infantis: os desenhos animados. Um mapeamento estatístico realizado pela ONU em seis emissoras abertas, no ano de 1998, já detectava, no período de uma semana, 1.432 crimes cometidos por heróis e vilões da garotada. Não é de impressionar que uma criança, exposta a tantas imagens conturbadas, possa até mesmo cometer tentativa de assassinato, como ocorreu há poucas semanas com o caso de um menino de três anos que, contagiado pela dramaticidade da novela "O Beijo do Vampiro" ("TV Globo"), sacou o revólver e deu três tiros no próprio pai, acreditando que ele fosse um deles. Mas como preservar a inocência infantil da influência negativa da televisão? "Desligar o aparelho de TV não é a solução, pois privaria as crianças de programas educativos e de boa qualidade que também existem", defende o coordenador do NCE (Núcleo de Comunicação e Educação da ECA/USP), professor Ismar de Oliveira Soares.Uma alternativa encontrada pelo NCE foi adotar o conceito chamado de "educomunicação", já praticado há cerca de 30 anos em países como Estados Unidos e Inglaterra. Como o próprio nome diz, trata-se de educar através da comunicação, ou seja, ensinar crianças e adolescentes a desenvolver uma consciência crítica diante ao que assistem na TV. Assim, através do projeto Educom.TV, realizado em parceria com a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, 2.228 professores de 1.024 escolas da rede pública estadual de ensino estão sendo preparados para melhor interpretar e analisar o conteúdo televisivo, bem como incentivados a promover debates aprofundados com seus alunos. O projeto vai, no entanto, além de uma leitura crítica da mídia televisiva. Ele ensina aos professores como utilizar equipamentos de audiovisual para, dessa forma, orientar os alunos a produzir seus próprios programas de TV na sala de aula. "Diante disso, as crianças passam de meras receptoras passivas a produtoras ativas de cultura", detalha Ismar. "Essa atitude influirá no modo como elas irão enxergar o mundo e assimilar novas informações". O objetivo do Educom.TV é transformar meninos e meninas em cidadãos plenos, ensinando-os que nem tudo é o que aparenta ser. Também pretende mostrar, na sala de aula, que é sempre necessário assumir a responsabilidade pelos próprios atos. Nos programas de jornalismo infantil, por exemplo, o intuito é que não se comente apenas sobre as loiras que deixaram de colocar silicone nos seios, mas a respeito de questões fundamentais como a fome e a miséria brasileira, devastação do meio ambiente e uso de drogas. TV LAMBANÇA - Outro programa semelhante ao Educom.TV é o "TV Lambança", um canal comunitário de Goiânia produzido por alunos da Escola Municipal Aristóclides Teixeira, em parceria com o Núcleo de Comunicação Comunitária da Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia da UFG (Universidade Federal de Goiás). De acordo com a professora Martha Goreth Alves, integrante do projeto há cinco anos, atualmente as crianças da escola têm se mostrado mais interessadas nas aulas, já que pesquisam e redigem. Também estão aprendendo a questionar e a serem mais seletivas com relação ao que assistem na televisão. A proposta da TV Comunitária goiana deu tão certo que já está sendo aplicada inclusive junto aos índios Krahó, de Tocantins.No ano passado, a UFG apresentou a experiência da "TV Lambança" durante o Seminário do Universo Audiovisual da Criança Latino-Americana. Professores da Universidade de Los Angeles se interessaram pelo projeto e querem fazer um intercâmbio deste tipo com iniciativas norte-americanas semelhantes. Segundo o coordenador da "TV Lambança", professor Nilton Reis, programas como esse estão acontecendo no mundo todo e acabam com o "adultocentrismo", ou seja, o adulto fazer e a criança só consumir. "Elas passam a ser produtoras de cultura", diz. A educomunicação para crianças já é uma filosofia colocada em prática em diversos países. Mas um exemplo especial a ser dado é o Children´s Express (Expresso das Crianças), que funciona com sucesso desde 1975 em Nova York. Trata-se de uma publicação feita de crianças para crianças, que opera como uma agência de notícias e até hoje trabalhou em mais de 175 histórias e publicou mais de 100 artigos na imprensa nacional, atingindo mais de 50 milhões de pessoas por meio de jornais, rádio e televisão. Entre os temas já abordados, estão o trabalho infantil na América e o impacto da guerra na Bósnia e na Croácia para crianças.Colégios particulares debatem TV - Desenvolver a consciência crítica da criança em relação às informações vindas da TV é uma tendência que se observa também nas escolas particulares. No Colégio Santo Américo, zona sul de São Paulo, por exemplo, os alunos estão freqüentemente debatendo o que assistem na televisão. "A começar pelas aulas de filosofia, onde o conceito ´algo que aparenta ser verdadeiro mas não é´, vem sempre ilustrado com gravações de programas, comerciais, novelas e jornais televisivos", conta o vice-reitor, Dom Geraldo Gonzalez Y Lima.Uma das maiores preocupações dos educadores, na visão dele, está relacionada com a influência da propaganda sobre os menores. "Elas sempre relacionam o cigarro e o uso de álcool a um estilo de vida saudável, ao qual aderem atletas e jovens cheios de energia".Para fazer um contraponto a esse turbilhão de imagens distorcidas, os estudantes da quarta série da escola analisaram uma propaganda de cerveja e tiveram como tarefa refazer o mesmo comercial, só que acrescentando o próprio ponto de vista. "Na apresentação do trabalho, eles mesmos chegaram à conclusão de que o álcool era prejudicial à saúde e não poderia ser relacionado à idéia de felicidade. Além disso, expuseram aos colegas que existiam outras formas de ser feliz, como cultivar os laços familiares, por exemplo".Os temas comerciais da TV também são fonte de estudo no Colégio Rio Branco, zona oeste de São Paulo. Lá, as crianças são incentivadas a observar não somente o conteúdo da exposição de determinado produto na tela, mas também o modo como esse conteúdo é veiculado. "A idéia é que elas prestem atenção em detalhes como uso de imagens fortes, olhares, música para memorização e intenção das falas e gestos", diz a coordenadora de língua portuguesa de Educação Infantil e Ensino Fundamental, Wilma Maria Sampaio Lima.Escrever e colocar no papel os sentimentos é uma arma poderosa para não receber pacificamente as influências transmitidas em alta velocidade pela TV. Assim, uma das tarefas propostas pelo Rio Branco é a redação freqüente de textos de análise sobre desenhos e filmes. "É impressionante como no começo, os textos aparecem truncados e sem nenhuma conexão entre palavras, com frases do tipo: ´Pá, pum... eu vou te matar...´, descreve Wilma. "Mas aos poucos, ao passo que o aluno vai entendendo melhor o conteúdo televisivo, sua análise sobre os assuntos também vai tornando-se mais clara e lógica".

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.