Em coletânea, o jazz segundo os filmes de Woody Allen

A paixão de Woody Allen pela época dourada da música popular norte-americana, entre os anos 20 e os 50, com ênfase nas décadas de 20 e 30, escancara-se em praticamente todas as trilhas de sua filmografia. "Quando nasci", disse ele em entrevista, "a música popular que tocava no rádio era a de Benny Goodman e Count Basie, havia canções de Gerhswin, Cole Porter, Rodgers & Hart, Jerome Kern e Irving Berlin". "Eu achava aquela música linda e maravilhosa. Aos 10 anos, sabia de cor qualquer canção de Gershwin, Cole Porter, Kern. E adorava a música dos anos 20 e 30."

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2013 | 02h17

Aos 14 anos, ouviu Sidney Bechet, e encantou-se definitivamente com o jazz. Aos 15, começou a tocar clarineta e estudou de cara com Gene Sedric, que tocara com Fats Waller. Em 1970 formou seu próprio grupo, a New Orleans Funeral and Ragtime Orchestra. Tocou semanalmente no Michael's Pub até 1997; e desde o fechamento da casa, mudou-se para o bar do Hotel Carlyle, o mesmo espaço em que Bobby Short aparece tocando piano e cantando no filme Hannah e suas Irmãs.

A Music Brokers acaba de lançar um álbum duplo trazendo uma amostra da imensa riqueza da sensibilidade musical do cineasta (edição nacional, com R$ 49,90 como preço sugerido). Suas 28 faixas são um passeio fascinante pelas entranhas da música popular e do jazz dos anos 20 aos 50. E o melhor, como estes fonogramas caíram em domínio público, a antologia só tem as performances originais.

Esta é a parte positiva do lançamento. A negativa é que não há folheto e nem são informadas datas de gravação ou os nomes dos músicos que delas participam. Assim, perdem-se detalhes preciosos de verdadeiras gemas. Como, por exemplo, as duas faixas em que Ella Fitzgerald, acompanhada apenas pelo piano refinadíssimo de Ellis Larkins, em registros de 1950 e 54, faz leituras perfeitas de clássicos como Makin' Whoopee e I've Got a Crush on You. Ou então a incrível versão de I Got Rhythm, pouco mais de 3 minutos sensacionais, de Benny Goodman acompanhado pelo piano de Teddy Wilson, o vibrafone de Lionel Hampton, a bateria de Gene Krupa e o maravilhoso Slam Stewart, que percute as cordas do contrabaixo e entoa em scat uma oitava acima o que toca.

Ao todo, pouco mais de 2 horas de pérolas musicais caindo em cascata sob nossos ouvidos maravilhados. Cada uma é mais superlativa que a anterior. Você ouve uma versão linda de Embraceable You com o trompete de Roy Eldridge e segue com cinco gênios da canção encadeados - Billie Holiday em All of Me, Nat King Cole tocando piano como um demônio e cantando como só ele sabe em I'm in the Mood for Love, Frank Sinatra garotinho arrasando em Begin the Begin com a big band de Tommy Dorsey, Sarah Vaughan na flor da idade, sensacional em But Not for Me e Dinah Washington sensualíssima em Love Is here to Stay.

Tem também Nina Simone, Lena Horne e Bing Crosby arrebentando em Sweet Georgia Brown. E duas cerejas absolutas neste banquete: 1) Ella e Satchmo em dose dupla: Mack the Knife e Cheek to Cheek; 2) a lendária Ivie Anderson cantando com a big band de Duke Ellington It don't Mean a Thing.

Não é à toa que a gente sempre sai do cinema depois de assistir a um filme de Woody Allen intrigado, querendo saber mais sobre esta ou aquela gema dos anos dourados da canção e do jazz norte-americanos.

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