Em classe, o papel da escrita criativa

Em classe, o papel da escrita criativa

O mestrado em Creative Writing do Hunter College, de Nova York, que tem ficcionistas de talento como Nathan Englander entre os professores, é ícone de uma vigorosa tendência da literatura americana do pós-guerra

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2010 | 00h00

NOVA YORK

Na sala de aula ainda vazia, trechos de conversas chegam do corredor. "Diáspora africana", "literatura marxista" e "Shakespeare"; as palavras bem poderiam ser arranjadas como peças num palco para compor o cenário a seguir.

O primeiro a chegar é um latagão de cabelo cortado rente e penso que, se não estivesse numa badalada escola de literatura no coração de Manhattan, diria que ele parece um fuzileiro naval em dia de folga. Ah, as peças que o preconceito inconsciente nos prega. O rapaz é mesmo um veterano fuzileiro naval que serviu no Iraque tanto quanto é aluno em tempo integral do mestrado de Escrita Criativa do Hunter College of The City University of New York (CUNY).

O professor chega, pontual e sorridente, trazendo uma convidada. O escritor Nathan Englander - autor de Para Alívio dos Impulsos Insuportáveis e O Ministério de Casos Especiais (Editora Rocco) e que esteve no Brasil para participar da Flip 2008 - pertence à melhor tradição de humor judaico. Seu talento de performer vai provocar fartas gargalhadas nas próximas duas horas de aula.

O corpo docente do mestrado do Hunter College dá uma ideia da importância do curso que se tornou uma poderosa atração acadêmica do pós-guerra americano.

O curso é dirigido por um renomado poeta, Tom Sleigh. Além de Nathan Englander, há, entre os professores, luminares como o irlandês Colum McCann, ganhador do National Book Award de 2009, por Deixe o Grande Mundo Girar (Record; lançamento previsto para o próximo mês); o premiado romancista australiano Peter Carey, autor, entre outros, de Roubo, Uma História de Amor e Minha Vida, Uma Farsa (ambos também da Record); Claire Messud, autora de Os Filhos do Imperador (Nova Fronteira); o coreano Chang rae-Lee, cujo primeiro romance, Native Speaker (1995), recebeu o prêmio PEN/Hemingway.

A turma de seis alunas e cinco alunos está reunida em torno da longa mesa retangular. Eles se debruçam sobre o livro de poemas da convidada Rachel Zucker, Museum of Accidents. A poeta foi colega de Englander no mais tradicional curso de Escrita Criativa da língua inglesa, o lendário Iowa Writers" Workshop.

Aqui como lá a dinâmica entre instrutor e aprendiz é a mesma da Grécia Antiga, mas a fugaz musa da inspiração, o elefante nesta sala de aula, faz com que os alunos bebam as palavras da escritora publicada. Não é preciso consultar estatísticas para saber que uma fração ínfima dos graduados expelidos pelos mais de 300 cursos de pós-graduação de escrita criativa do país terá encontro marcado com o público leitor.

Zucker tem a língua afiada e fala tanto de poesia quanto de si mesma. O vídeo de seu terceiro parto foi visto online por mais de meio milhão de pessoas ("É o meu trabalho mais disseminado", diz, admitindo o óbvio). A certa altura, ao reivindicar o direito de provocar desconforto com um poema, ela começa a imitar, de maneira jocosa, seu ex-professor de Iowa, o grande poeta Mark Strand, de 76 anos, autor de belíssimas traduções dos versos de Carlos Drummond de Andrade. Tive o privilégio de conhecer Strand e a caricatura de opressor estético me parece um recurso barato. A deselegância do momento escapa aos alunos entusiasmados por serem admitidos na intimidade da inconfidência professoral.

A segunda metade da aula, conduzida por Englander, consiste na leitura crítica do livro Unstrung Harp, de Edward Gorey (1925-2000), um autor prolífico e mais conhecido como ilustrador gótico. O livro de Gorey é sobre a vida literária mas também sobre escritores que lhe desagradam, como Henry James. Englander se delicia com o horror de Gorey a James mas este professor não tem uma vértebra maldosa. À medida que os estudantes vão lendo em voz alta as passagens do livro, Englander vai recheando a conversa de comentários sobre o processo criativo, do escritor agitado (Balzac e cafeína) ao cerebral, Benjamin Franklin. "O segredo de programas como este é sentar e escrever", declara Englander, casual. "Quem de vocês consegue escrever com música?" Os alunos desabafam, um diz que escreveu por cinco horas, foi dormir se sentindo gênio e, quando acordou, concluiu que nada prestava.

"A ambição pode ser feia se não vem do lugar certo", aconselha o professor.

Apesar de vocês. Do câmpus da Universidade de Iowa, aquela onde Englander recebeu seu diploma, a diretora do Writers" Workshop fala com o Estado por telefone. Lan Samantha Chan, autora de Herança (Objetiva, 2005), não só é ex-aluna do Workshop como representa uma geração de literatura imigrante encorajada por cursos de Escrita Criativa. Seus pais, chineses que fugiram da ocupação japonesa, gostariam de ter uma filha médica. Quando cursava a School of Government de Harvard, a futura escritora desistiu de agradar aos pais. Em 2005, ela se tornou a primeira mulher e descendente asiática a dirigir o Iowa Writers" Workshop, por onde passaram instrutores como Robert Lowell, Philip Roth, Kurt Vonnegut e John Cheever.

Em 2009, uma edição especial comemorou os 25 anos da publicação de The House On Mango Street, sucesso pioneiro da ficção imigrante latina. A autora Sandra Cisneros deu uma entrevista dizendo que se tornou escritora "apesar" de Iowa. Cisneros, criada em Chicago, acusou os professores de lhe ensinar "o que ela não queria ser" de não entenderem sua voz distinta.

Chang passa ao largo da controvérsia mas lembra que o escritor imigrante geralmente começa por examinar sua origem e, aos poucos, se afasta da "literatura de identidade", como ela própria. Seu próximo romance, All Is Forgotten, Nothing Is Lost (W.W. Norton & Company, previsto para sair em setembro), vai tratar não da diáspora chinesa, mas de jovens escritores. Ela não acredita num desafio de autenticidade, diante da crescente diversificação cultural dos inscritos no Workshop. Diz que uma das missões da narrativa é derrubar fronteiras. "O que nós queremos aqui é a compreensão no nível humano, não no nível teórico", conclui.

O primeiro curso de Escrita Criativa foi criado no Middlebury College de Vermont, na década de 20, e era conduzido pelo poeta Robert Frost. Mas foi o Iowa Writers" Workshop, fundado em 1936, cujos alunos ganharam 16 prêmios Pulitzer, que ajudou a definir e difundir este tipo de ensino, considerado por muitos escritores como uma contradição em termos.

O título do livro The Elephants Teach: Creative Writing Since 1880, de D.G. Meyers, alude a um episódio na Universidade Harvard, quando Vladimir Nabokov foi considerado para um posto de professor de literatura. O linguista Roman Jakobson, que dava aula em Harvard, perguntou se o próximo passo seria recrutar um elefante para dar aula de zoologia.

Ninguém traçou melhor a evolução do curso e seu efeito na literatura americana do que Mark McGurl, em The Program Era: Postwar Fiction and The Rise of Creative Writing (Harvard University Press, 2009). O professor de inglês da Universidade da Califórnia atribui à emergência dos cursos a influência individual mais decisiva na ficção americana da segunda metade do século 20.

De volta ao Hunter College, o showman Englander declara, bombástico: "Odeio tudo o que Borges escreve." Pausa. "A não ser quando foi ele que escreveu", continua. Borges é um gênio, diz Englander, e só ele podia ousar como ousou. Os risos diluem o dilema embutido no comentário. A inspiração não pode ser transmitida. E o artifício só, não basta.

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