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Em cima de quem cai a Bastilha?

Onde existia a fortaleza, há um moderno teatro de musicais que apresenta 'Os Miseráveis'

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

02 Julho 2017 | 02h00

Românticos e revolucionários celebram a data. Paris assim demarcou e nós, sapos dos brejos do ultramar, coaxamos a toada francófona. Para a historiografia soviética, a queda da Bastilha era o fim da Idade Média e início da Moderna. Para os chineses, foi um ano a mais do governo interminável do imperador Qianlong, que expandiu as fronteiras do país. 

O que ocorreu há 228 anos na terra do presidente Macron? O verão de 1789 estava tenso na França. O pão subira mais ainda como efeito combinado do clima e da instabilidade política. O déficit tinha provocado a convocação dos Estados Gerais e, em vez de resolver a situação financeira do Estado, tinha desencadeado um turbilhão político que mudaria o Antigo Regime. 

O rei era Luís XVI, o bem-intencionado e fraco monarca. O mundo estamental definido pelo nascimento e o Absolutismo de Direito Divino estavam desgastados. Ataques intelectuais do pensamento iluminista expunham os defeitos estruturais daquele mundo. O terceiro Estado, que era tudo (como dizia um folheto de E. Sieyès), começara uma insurgência em Versalhes. No verão, o incêndio atingia Paris.

Nas ruas pipocavam rumores sobre o ministro Necker, o gênio das finanças que principiara reformas. Dizia-se que o rei fecharia a Assembleia e marcharia sobre insubordinados com força militar. Os boatos corriam fluidos como as águas do Sena.

Como ocorre em situações de tensão, a massa de Paris, insuflada por oradores de rua (como o jornalista Camille Desmoulins) e panfletos variados, foi até os Inválidos (Invalides) em busca de armas. Obtiveram quase 30 mil mosquetes. Faltava munição. Sugeriu-se a Bastilha, a velha prisão, símbolo das arbitrariedades monárquicas. 

Construído para defender Paris na Guerra dos Cem Anos, o prédio fora importante nas guerras de religião no século 16 e nas Frondas do 17. O nome oficial da muralha com oito torreões era Bastille Saint Antoine. No ano inicial da Revolução, seus escassos sete prisioneiros estavam distantes do período que Voltaire fora prisioneiro. O Marquês de Sade saíra da fortaleza havia pouco. Havia um nobre pervertido na cela, um louco, um velho que estava lá há décadas por ter tentado matar Luís XV e quatro falsários de moeda. Nada dos dias gloriosos do prisioneiro da máscara de ferro. 

Pequena guarda velava no pátio interno. Nas pinturas posteriores, o muro foi aumentado para conferir maior glória aos insurretos. Como se tornou um símbolo, ela deveria crescer na memória. A Bastilha real era menor. 

O diretor recebeu uma comissão. Sucederam-se outras. Comeram juntos. Discutiram sem nenhum acordo definitivo. À tarde houve tiroteios e confusão. Morreram 98 atacantes e um guarda da fortaleza. No fim do dia 14 de julho, pelas 17h, surge a ordem de cessar-fogo. A multidão entrou no pátio interno pelas 17h30. Libertaram os apenados. Bernard-René de Launay foi morto e teve a cabeça decepada por um auxiliar de cozinha. O espetáculo macabro da cabeça do diretor da Bastilha e do prefeito de Paris, espetadas em lanças e em desfiles pelas ruas, marcaria o resto daquele dia 14 de julho. 

A ação significava massas urbanas disputando o protagonismo da revolução com os deputados. Havia agora, ao menos, duas cabeças presentes na vanguarda revolucionária: uma mais radical e querendo transformações amplas, outra moderada, desejando limitar o poder do rei e estabelecer uma monarquia similar à inglesa. Os dez anos seguintes, 1789-1799, seriam, grosso modo, o choque entre essas e outras forças políticas. 

A Bastilha foi demolida e as pedras enviadas para toda a França, para que houvesse uma relíquia daquela jornada gloriosa. Revoluções produzem e destroem símbolos. Houve comemoração no ano seguinte: a festa da Federação, celebrada no Campo de Marte. Lentamente, foi virando o “14 julliet”, a festa nacional da França. Celebrar uma revolução também é uma forma de domesticá-la. 

A queda levou ao chamado Grande Medo. Parecia que não haveria mais poder ou repressão e muitas pessoas tomaram a iniciativa de queimar cartórios onde repousavam documentos de dívidas, contratos e títulos de servidão. Julho e agosto conheceram o “mundo de ponta-cabeça”, expressão que C. Hill empregou para a Revolução Puritana um século antes. 

Revoluções são generosas em produzir bons documentos de referência como a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. Também são úberes em gestar novas opressões. Eis uma das bases da crítica conservadora de E. Burke, que, do outro lado do canal, duvidava de saltos históricos e da instalação do paraíso por decreto. Da mesma forma, o escritor G. Orwell (A Revolução dos Bichos) fala do movimento dos animais que derrubam o despotismo humano, mas que, mesmo em meio a sonhos de igualdade, consagram que alguns animais continuam mais iguais do que outros. Na Washington de Trump e na Havana de Raúl Castro, alguns animais sempre são mais iguais do que outros. 

Em 1889, a França celebrou o centenário do fato com uma exposição universal grandiosa, triunfo da burguesia, a mesma que havia visto com desconfiança e medo a queda da Bastilha. As festas de 1989 também foram impressionantes. Nos dois casos, os governos estavam felizes de que a revolução fosse uma comemoração e não mais um fato político. 

Não há mais Bastilha, todavia persiste a torre Eiffel, construída para celebrar o centenário do episódio. Diante do engenho burguês e industrial, as massas atuais ficam estupefatas e fazem selfies. Onde existia a fortaleza, há um moderno teatro de musicais. Lá, a preço alto, as pessoas podem ver Os Miseráveis e bater palmas para revolucionários que cantam e dançam com armas de festim. Todos podem comprar canecas e camisetas com cenas das barricadas. Triunfo da igualdade revolucionária: a fila do caixa é sagrada. Bom domingo para todos vocês. 

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