Em Cena

HOJE: CHANEL, STRAVINSKI, 1913, A SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA, AFFAIR, DIAGHILEV, MECENAS, BRÍGIDA, DOLORES, LAS BIBAS FROM VISCAYA

Chris Mello, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2010 | 00h00

CHANEL & STRAVINSKI

Coco Chanel era loucamente apaixonada por Boy Capel em 1913 - época em que Igor Stravinski estreou no Théâtre des Champs-Elysées A Sagração da Primavera, que foi considerada moderna demais, radical demais, foi vaiada e causa de um motim em Paris. Stravinski ficou péssimo, voltou para a Rússia. Sete anos depois - Boy já morto - Chanel reencontra Stravinski, exilado em Paris, sem um centavo. Oferece que viva em sua vila em Arches para que trabalhe. Ele vai com família e tudo, e tem um affair com Mademoiselle. Esse período da vida dos dois ícones foi filmado pelo diretor Jan Kounen com Anna Mouglalis, musa de Lagerfeld, como Chanel.

No Brasil para o Festival Varilux de Cinema Francês, Anna Mouglalis, falou com exclusividade ao Estado:

Sabe-se pouco sobre este período. O filme não é 100% realidade...

Chanel e Stravinski se conheceram de fato. E, graças a ela, A Sagração da Primavera foi remontada. A primeira vez em que foi apresentada, a música provocou um grande escândalo. Chanel e Stravinski eram como punks. Mulheres nos anos 1920 não viviam como Chanel, que fez perfumes, roupas e fez dela a mulher que queria ser. E Stravinski fazia naquele tempo músicas como são feitas hoje as de filmes. Sim. Objetivamente, sabemos que eles estiveram juntos, mas não quanto. Sabemos que foi uma relação intensa, pois o ícone (imagem religiosa ortodoxa) de ouro que Stravinksi deu a ela ficou em sua cabeceira até a morte. A única prova concreta dessa relação, porém, é um telegrama de Diaghilev aconselhando Chanel a não encontrá-los numa viagem porque Stravinski queria matá-la. Ela já estava com o duque Dmitri, e imaginamos que esse tipo de reação com tanto ódio só poderia vir de uma pessoa apaixonada.

De que maneira pesquisou para compor sua Chanel?

Tenho uma longa história com Chanel. Há oito anos, Karl Lagerfeld me chamou para representar o espírito Chanel e desde então pesquisei, sem saber que um dia a faria no cinema. Dormi muitas vezes no sofá do quarto de Chanel. E ela é como um personagem de ficção. A maioria que conviveu com ela, escreveu livros. E todas as histórias são diferentes.

Leu Chanel m"a Dit, de Lilou Marquand?

Sim, Lilou trabalhava com Chanel. A questão é que todos livros escritos sobre Chanel são mais sobre o escritor do que sobre ela. Chanel meio que inventava sua vida para que fosse uma história...

Ou inventava para parecer maravilhosa?

Ela não revelava que vinha de um background pobre.

Era misteriosa...

Ela mostrava bastante o que sentia, mas não em palavras. A partir da morte de Boy Capel, Chanel começou a usar preto. E ela não deveria usar preto porque não era a mulher dele. Mas fez um vestidinho preto e, de repente, todo mundo vestia preto como se estivesse de luto. Depois da morte dele, Chanel se fechou, pois foi uma terrível perda. E aparentemente ela se salvou graças à arte. O marido de Missia Sert, sua melhor amiga, a tirou de casa e a apresentava a todos das artes, boêmios. Chanel começou a entender que arte seria uma janela para outro mundo. E que ela poderia sentir-se muito mal no dia a dia, mas viver bem em meio à arte. Ela acabou virando mecenas, sem nunca confundir-se como artista. Era sempre convidada por Diaghilev, que a apresentou a Stravinski. Ela o levou para viver em sua casa de campo, com a família, para que pudesse criar. Ficaram juntos, mas foi uma paixão que não funcionaria e não tinha futuro. Era uma relação estranha. Ele não era fascinado pelo trabalho dela e, sim, pela mulher que foi. E ela não se interessava pelo homem, mas pelo artista. Ela se apaixonou pela arte dele e o ajudou por mais dez anos. Mas ajudou também a Jean Cocteau e outros.

Por que acha que Karl Lagerfeld representa contemporaneamente tão bem o estilo de Chanel?

Talento é talento. Ele é tão imaginativo e sabe tanto, mas tanto, sobre todos os anos da moda, e é interessado em arte, em arquitetura, e é tão aberto para o mundo que acaba não tendo nada a provar, então traduz o trabalho de Chanel muito bem. Acho também que Karl Lagerfeld é um punk.

NO GUGGENHEIM

O arquiteto Frank Lloyd Wright explorou a percepção do vazio ao desenhar o Guggenheim em 1959, e agora, para comemorar os 50 anos do museu, 200 artistas, entre designers e arquitetos, foram chamados pela curadora-chefe, Nancy Spector, para propor a ocupação da rotunda do museu na mostra Contemplating the Void. Cinco artistas foram escolhidos - e o brasileiro Lúcio Carvalho vai preencher o centro com uma instalação. Remontou uma favela.

Anish Kapoor, Sarah Morris e Doris Salcedo também têm trabalhos no museu.

BABEL

No abre-alas da Parada GLBT George M é quem puxa o coro. George é a figura por trás de Las Bibas From Viscaya - e tem disco novo na manga. "São músicas tristes", conta. Difícil imaginar triste o homem do ventilador na potência máxima.

Walcyr Carrasco escreveu para Dionísio Neto o drama Desamor para completar a Trilogia do Amor. A peça se passa em uma mesa de bar e será encenada na reabertura do cabaré O Inflamável, fechado para reforma desde dezembro. A direção será de Lucia Segall. E a trilogia está sendo traduzida para ser exportada para o circuito off-Broadway.

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