Em cena, a memória e a palavra

Resenha[br][br]Colombiano trata da relação entre um pai e seu filho ao mesmo tempo em que desvenda o sistema político do país

Eric Nepomuceno, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2010 | 00h00

Todo autor, ao publicar seu primeiro livro, corre o risco de ser massacrado por algum crítico azedo. Foi o que aconteceu com o jornalista colombiano Gabriel Santoro. A diferença é que, no seu caso, a crítica mais virulentamente demolidora partiu de um intelectual de refinada ironia, um respeitado e influente professor de retórica que também se chamava Gabriel Santoro e era seu pai.

O que teria levado o Gabriel pai, que não se dedicava à crítica literária, a demolir tão impiedosamente o primeiro livro do Gabriel filho? Descobrir essas razões é um dos chamarizes da trama de Os Informantes, do colombiano Juan Gabriel Vásquez, nascido em 1973 e que mora em Barcelona desde 1999. E já que a vida nem sempre imita a arte, o autor teve melhor sorte que seu desafortunado personagem. Com seu primeiro romance, Vásquez foi alvo de uma consistente saraivada de elogios, inclusive em The New York Times e Washington Post, além de prêmios que costumam consagrar consagrados e revelar revelações. E não sem razão: Os Informantes é bem estruturado, mantém um ritmo narrativo seguro e atrativo, supera com galhardia o perigoso recurso de fazer um suposto jornalismo para narrar uma história de ficção

Neste romance de estreia (ele havia publicado um bom livro de contos, Los Amantes de Todos los Santos), Vásquez trata da vida de uma judia alemã, Sara Guterman, que chegou adolescente à Colômbia com a família, fugindo do nazismo. Com o tempo, Sara se fez amiga do Gabriel Santoro pai. E é a partir da história de Sara e dos que buscaram a longínqua Colômbia para fugir de Adolph Hitler que o jovem Gabriel Santoro começa sua ampla reportagem.

O narrador do livro é um bom rastreador de vidas alheias. Ao tratar da memória individual de Sara Guterman mergulha na memória coletiva de seu sempre convulsionado país, e acaba rastreando a própria vida e a de sua família. Se o mecanismo escolhido por Juan Gabriel Vásquez para tratar da realidade colombiana não chega a ser propriamente inovador, o que caracteriza Os Informantes é a destreza com que o autor conduz a narrativa.

Assim, são dois os verdadeiros protagonistas do livro: a memória e a palavra. Os personagens falam de maneira incessante, um depoimento leva a outro, um segredo revelado conduz a vários segredos silenciados. Enquanto se desvenda a relação do Gabriel filho com o Gabriel pai, surge aos poucos o paralelo entre a Colômbia atual e a dos tempos em que chegaram Sara Guterman e centenas de judeus alemães refugiados. São, pois, duas narrativas que se aproximam e se afastam, se entrelaçam e se opõem - a pessoal, interior, e a exterior, que mostra, a partir das relações da Colômbia com os Estados Unidos de Roosevelt, como foi se alastrando no país um sistema político baseado no ressentimento e na violência. Nessa linha, de clara influência (aliás, reconhecida honradamente por Vásquez) de Philip Roth, são narrados dados reais da história contemporânea colombiana através do desvendar de histórias individuais. Surgem memórias de traições pessoais e coletivas, particulares e públicas, todas elas contadas sem concessão alguma.

Os Informantes é um bom romance político sem ter uma vírgula de panfletário. Como toda boa literatura, parte de um dado real - uma conversa de Juan Gabriel Vásquez com uma mulher judia que se refugiou na Colômbia para escapar do nazismo e, em seu país de asilo, passou a ser perseguida por ser alemã - e alça voo na narrativa de ficção para, ao inventar, ou seja, ao mentir, contar a verdade. Cumpre duas lições definitivas que ouvi na vida. A primeira, do crítico cubano Ambrosio Fornet, ao falar do romance A Canção de Raquel, de seu conterrâneo Miguel Barnet: "Esta é a vida de Raquel, tal como ela contou a Miguel e tal como ele, agora, conta a ela." A outra, de meu mestre absoluto, Juan Rulfo: "Em literatura, você pode mentir e transformar a mentira numa forma de contar a verdade. O que você não pode é falsificar." Nesse difícil território fronteiriço entre mentira e falsidade Vásquez soube transitar com soltura e contar verdades.

Resta esperar que a gaúcha L&PM, de bons serviços prestados aos leitores, siga atenta ao que escrevem jovens hispano-americanos e não se limite a apenas este colombiano. Ah, sim: e que continue a ter o mesmo rigor e a mesma pontaria na hora de convocar tradutores do calibre de Heloisa Jahn.

ERIC NEPOMUCENO, ESCRITOR E TRADUTOR, É AUTOR, ENTRE OUTROS, DE ANTOLOGIA PESSOAL (RECORD) E O MASSACRE (PLANETA)

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