Arthur Max/Divulgação
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Em cena, a cidade e sua poética

A vida na metrópole se fez presente em tema e cenário de vários grupos que expandem sua arte para além dos espaços teatrais

Mariangela Alves de Lima, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2010 | 00h00

Há mais de 50 anos, o Teatro Oficina proclama seu brado vitalista: a matéria do teatro é a carne sólida dos homens, seu tempo é o momento presente e o espaço para o acontecimento teatral é o ar entre os corpos que a arte procura estreitar em uma união simbólica da única totalidade possível. Resumindo desse modo parece tratar-se de um austero credo laico professado por artistas dispostos a viver a pão e água, satisfeitos com o pouco que têm e submissos a regras monacais.

Nada disso. O desejo ardente do grupo, expresso tanto na arte que produz quanto nas teorizações que circunscrevem os espetáculos, é a satisfação da carne, a felicidade no instante e a comunhão com muita gente. Enfim, um projeto expansionista há muito tempo anunciado por batismos periódicos: primeiro Oficina, depois Uzyna e finalmente Uzona. E graças a essa tenacidade o grupo termina a primeira década do século 21 ocupando, ainda que por tempo determinado, o território daquele vizinho cuja especialidade é exatamente comunicar-se com muita gente. Não há figuras inocentes nas estratégias do grupo e essa recente ocupação do espaço físico alheio é também uma "devoração" dos atributos de outro comunicador.

Comunicação de massa é outra coisa, mas, na escala peculiar do teatro, em que os atores são meio e fim, as frestas abertas às vezes a golpes de picareta e outras vezes com lábia insistente são aberturas para que a cidade entre em cena e, inversamente, para que o teatro escape da sua circunscrição geográfica, estética e histórica. A reclusão, a arquitetura fechada e a ótica egocentrista correspondem, pelo menos do ponto de vista desse persistente coletivo teatral, a outros objetivos. É um teatro que ambiciona o lado de fora, quer mais gente assistindo, mas quer ainda incorporar ao seu discurso interno o fato de que é vislumbrado por carros velozes, transeuntes e observadores ocasionais das janelas. Ser atravessado é um modo de absorver a pulsação vital da cidade. Este ano termina com o desfile dionisíaco de parte do repertório.

Certamente não é nova ou singular essa relação literal com a polis e a sua derivação, a política. Apenas, de modo mais enfático, o Teatro Oficina tem a vocação da clareza e faz o possível para não separar a palavra da coisa. Quando quer avançar reivindica mais terra, quando quer ver mais abre um buraco na parede.

Além dele, outros coletivos teatrais produzem espetáculos cujo intuito é transbordar as circunscrições de espaço, tempo e fronteiras invisíveis de segregação social e econômica. Entre eles, o mais nítido, e talvez o mais radical nesse tipo de estratégia de representação, é o Teatro da Vertigem. Depois de ter representado em igreja, hospital, presídio e sobre as águas do Tietê, os atores do grupo dependuraram-se este ano do lado de fora de um arranha-céu da Avenida Paulista, imitando de modo mais que perfeito a precariedade do trabalhador e dos cidadãos que, de um modo geral, se comprimem ao redor do núcleo rígido do capitalismo financeiro. Revisto sob essa ótica, Kastelo - texto adaptado do livro de Franz Kafka - funciona como crítica ou anulação dos valores atribuídos ao dentro e ao fora.

Quem está do lado de dentro dessa fortaleza comandada por um sem rosto está tão precário e desabrigado como aqueles que, do lado de fora do castelo kafkiano, se esforçam para entrar. A localização da peça, em um altiplano que permitia vislumbrar o horizonte longínquo e cintilante da metrópole sob a luz artificial, era, sem dúvida, um recurso de composição sedutor que o espetáculo não desdenhou. Têm a sua beleza e inegáveis atrativos as fortalezas de aço e vidro em cujo interior translúcido se processam as operações abstratas do trabalho e dos "serviços". A renúncia do Teatro da Vertigem aos espaços tradicionais de exibição do espetáculo não é, portanto, uma atitude investigativa. Faz parte do sentido da peça a Avenida Paulista, assim como são signos o dentro e o fora, o desequilíbrio dos intérpretes nos andaimes e o fato inegável de que só a um pequeno número de espectadores a situação dramática proporciona abrigo e segurança.

Simbiose. Cada observador do teatro paulista terá o seu recorte diante de uma oferta de milhares de espetáculos de todos os gêneros, e em todos os recantos, e há tantas escolas florescendo no momento que é possível que essa experimentação dos aprendizes iguale em número as representações profissionais. São incontáveis os assuntos: repertório, dramaturgos novos, intérpretes talentosos entrando em cena, novas perspectivas de organização da produção e a simbiose cada vez mais necessária entre a cenotécnica e a tecnologia. Essas duas menções a acontecimentos pontuais do ano de 2010, no entanto, não se acomodam no limite da temporada ou do ano. A expansão do Teatro Oficina pelo seu entorno a partir de um eixo cultural e o aproveitamento que o Teatro da Vertigem faz do vestígio histórico impregnado na arquitetura das instituições e na conformação da cidade são alicerces da poética desses dois grupos. Em ambos os casos a cidade entra em cena na dupla condição de presença viva e imperativo simbólico.

Há outros sentidos que se acomodam muito bem dentro do palco italiano. Dispensam terra e tijolo e foi suficiente para Antunes Filho fazer deslizar cenas contra fundo neutro para evocar a alma devastada de Policarpo Quaresma. Em Casting, Ulisses Cohn emoldurou a pobreza material e intelectual da Rússia depois do desmoronamento da União Soviética com um comentário visual que vale uma lição de história. Mas talvez a contrapartida rigorosa das criações que se alastram para fora do edifício teatral esteja em um dos trabalhos de Daniela Thomas.

Na cenografia feita para Inverno da Luz Vermelha, uma peça norte-americana adaptada para situar-se em São Paulo, o modo de vida paulistano é sublimado ao máximo. Recorte sombrio dentro de um palco obscuro, o espaço cenográfico é uma espécie de covil onde a personagem se refugia do gigantismo urbano e do convívio forçado com a multidão. Dito de outro modo também isto é a presença inescapável da cidade.

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