Em CD, Andreas Staier faz leitura renovada de Beethoven

Reinvenção ou máquina do tempo? O cravista e fortepianista alemão Andreas Staier, de 56 anos, opera este duplo milagre ao interpretar as célebres porém pouco tocadas "Variações Diabelli", opus 120, de Beethoven em CD recém-lançado no mercado internacional pela Harmonia Mundi (download em www.classicsonline.com por $ 9,99). É uma das obras de sua plena maturidade, completada em 1823, ao mesmo tempo que a "Missa Solemnis" e as últimas três grandes sonatas para piano.

AE, Agência Estado

27 de agosto de 2012 | 11h29

Staier nos mostra como é possível renovar a leitura de uma peça que pensávamos conhecer. Sobretudo por ouvirmos as Diabelli em pianos modernos. Em algumas variações ele utiliza recursos como pedais que hoje não existem mais, proporcionando timbres inéditos. É incrível, mas verdadeiro. A paleta timbrística do piano se enriquece.

Pilotando um pianoforte em tudo semelhante àquele feito por Conrad Graf especialmente para Beethoven em 1824, Staier nos mostra uma riqueza e diversidade insuspeitadas para nossos modernos ouvidos.

É difícil de acreditar, mas Beethoven, então já totalmente surdo, fez uma exaustiva pesquisa de timbres nesta obra que nasceu como um convite feito pelo editor Anton Diabelli a 50 músicos e amadores ilustres de Viena, em 1819. Ele mandou, numa folha única, uma valsinha, pedindo que lhe devolvessem uma variação nas costas daquela página. Ou seja, queria quase uma vinheta, de não mais de 40 ou 50 segundos, tempo de duração do tema.

Entre os convidados, nomes ilustres como o de Franz Schubert e o então pré-adolescente Franz Liszt, mas também o arquiduque Rodolfo, mecenas e aluno de Beethoven. Isto é, amadores e profissionais juntos numa banal jogada de marketing.

Pois Beethoven aproveitou o gancho para compor uma obra monumental, ao todo 33 variações. Eu não sabia, mas é quase um crime ouvi-las num piano moderno. Só tive consciência disso ao ouvir este CD. Na ótima entrevista no encarte, Staier diz que as Diabelli são "música endereçada mais aos conhecedores que aos amadores, no fundo estamos diante de música para músicos". Ele costuma, aliás, ir fundo em cada projeto artístico. Neste caso, resgatou o manuscrito autógrafo, que inexplicavelmente permanecia inacessível aos pesquisadores - e levou a Beethoven-Haus, o museu-memorial-centro cultural dedicado ao compositor de Viena, a disponibilizá-lo (www.beethoven-haus-bonn.de).

Até para marcar a imensa diferença entre as 33 Variações de Beethoven e as descompromissadas variações dos demais convocados pelo editor Diabelli, Staier toca dez deste último grupo. O cravista alemão separa os dois blocos de natureza e qualidade tão diferente - num gesto atrevidíssimo para os padrões atuais, mas absolutamente adequado para a prática e estética musical vigente na Viena das primeiras décadas do século 19 - com um improviso seu a partir de fragmentos de Beethoven, que intitulou "Introdução".

Ele explica assim seu gesto: "Com a introdução, quis criar um espaço sonoro que separa claramente os 12 prelúdios de Czerny a Schubert do grande ciclo de Beethoven. É uma espécie de respiro, numa música de escrita extremamente rigorosa. Acho que a dimensão do improviso tem um lugar perfeito aqui. Permite, por outro lado, numa segunda audição, devolver à valsa de Diabelli todo o seu frescor. Prendo-me à essência do que se reconhece no esboço de Beethoven de 1819. Permaneço próximo do tema".

O fortepianista argumenta que Beethoven constrói suas variações por meio de "ondas dinâmicas", que se distribuem numa "arquitetura minuciosamente concebida". Por isso, ficam incompreensíveis se tocadas isoladamente. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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