Em cartaz, a face contemporânea de Bispo do Rosário

Arthur Bispo do Rosário (1911-1989) é uma das figuras mais relevantes da arte brasileira do século 20, não apenas pelo caráter trágico de sua história, mas pela surpreendente presença em seus trabalhos de questões essenciais da produção contemporânea. Mesmo que para apaziguar a dor de uma personalidade fragmentada, premido pela necessidade de colocar ordem no caos psíquico e emocional que o assolava, esse homem, diagnosticado como esquizofrênico-paranóico e que passou 50 anos sendo internado em asilos psiquiátricos, conseguiu elaborar uma das mais belas e pungentes construções visuais, na qual lida com procedimentos formais recorrentes na arte das últimas décadas, como a ordenação, a catalogação e a repetição. Sua produção é um mantra, artístico, psíquico e religioso.Jogando a luz sobre a excelência artística dessa obra, será inaugurada amanhã no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) uma mostra multidisciplinar, na qual o público terá acesso não apenas a obras pouco conhecidas do artista, mas principalmente será envolvido por uma série de diálogos poéticos entre Bispo e um elenco diverso de produtores culturais das mais diferentes áreas - das artes plásticas à dança, da música ao cinema.Desta forma, o caráter paradigmático de sua obra se afirma quase sozinho. Os ecos são evidentes, apesar de muitas vezes sutis. O evento foi idealizado por uma dupla de curadores, a psicanalista Jane de Almeida e o crítico e professor de filosofia, Jorge Anthonio e Silva (autor, entre outras obra, de Arte e Loucura - Arthur Bispo do Rosário). Ao longo de quase dois anos eles contaram com a colaboração de um time de artistas e curadores e elaboraram um evento eclético, cuja espinha dorsal é a produção visual contemporânea, mas que extrapola os limites da segmentação de linguagens artísticas.Além do evidente fascínio e compaixão que a trágica história desse homem - que foi marinheiro e pugilista e acabou encerrado em uma instituição psiquiátrica e fechado sobre si mesmo, falando e compondo com seus botões, com os fios de brim desfiado dos uniformes dos internos, com os nomes e com todos os objetos, reais e simbólicos, que catalogava obsessivamente -, a mostra põe em relevo uma obra potente, repleta de significados. Afinal, como diz Agnaldo Farias, responsável pela seleção dos 12 artistas plásticos representados na mostra, o status de obra de arte não depende apenas de quem a faz, mas de quem a vê.Ordenação e Vertigem. De terça a domingo, das 12 às 20 horas. Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, tel. 3113-3651. Até 12/10. Abertura amanhã, às 11 horas, para convidados.

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