Yves Herman/Reuters
Yves Herman/Reuters

Em Cannes, mas sem pressão

Diretor considera confortável mostrar 'Restless' na seção Un Certain Regard

Luiz Carlos Merten / CANNES, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2011 | 00h00

ENTREVISTA: Gus van Sant, CINEASTA

Gus van Sant veio mostrar no 64.º festival seu novo longa, Restless. Outra história de jovens, desta vez, a de um amor terminal, mas o cineasta troca o estresse da disputa pela Palma de Ouro pelo conforto da seção Um Certain Regard. Mia Wasikowska, a Alice de Tim Burton, e Henry Hopper, filho de Dennis, são os protagonistas. Ela está morrendo de um tumor na cabeça; ele, que perdeu os pais num acidente, é viciado em funerais. Uma estranha dupla, uma bizarra história de amor.

O que o atraiu nessa história que foge tanto aos standards do cinema da juventude?

Você pergunta e responde. Justamente o fato de ser uma história fora dos padrões atuais. O protagonista é morbidamente atraído pelo tema da morte. Encontra essa garota que está morrendo. É uma love story condenada, diferente das que o cinema está acostumado a contar.

Mas é sempre a mesma ideia da juventude no seu cinema. Por que os jovens o atraem, tanto?

Porque eles não têm a tentação dos adultos de ter respostas para tudo. O jovem, por princípio, busca conhecimento. Ele exercita sua sexualidade de uma forma às vezes mais incipiente, mas em geral é honesto nas reações e nas necessidades. Confrontar o jovem com o extremo, a morte, sempre me atraiu.

Não se trata de um projeto original seu. Como lhe foi proposto por Bryce Dallas Howard?

Bryce está se iniciando na produção. E ela é uma ótima produtora. Foi atuante no set, muito engajada na solução de todos os problemas. Ela possui essa firma com o pai (o cineasta Ron Howard) e ele lhe dá todo apoio. Ambos me fizeram saber que adoram meus filmes e eu era o diretor ideal para Restless. Bryce e o roteirista cursaram juntos a escola de cinema. Ele escreveu uma peça e Bryce o convenceu a transformá-la num filme. Foi assim que Restless nasceu.

O filme tem algo de um 'Ensina-me a Viver' (Harold e Maude) jovem. Concorda?

Não pensei em Harold e Maude, mas aqui em Cannes muita gente tem me falado do filme de Hal Ashby. É interessante, porque ele virou cult de uma geração por volta de 1970, que contestava o establishment.

Justamente a contestação. Sua obra parece se dividir entre filmes mainstream e os outros independentes, que têm mais a sua cara. Restless fica no meio?

Realmente, tenho filmes de um perfil que poderia chamar de mais experimentais, mas quando me proponho a fazer um filme essa divisão não existe na minha cabeça. Rodei Restless com toda liberdade. A diferença é o lançamento. O estúdio põe sempre muito dinheiro nisso. Sony Classics está fazendo um trabalho excelente para garantir a visibilidade de Restless.

Você não preferiria estar na competição?

Não necessariamente. Queria estar em Cannes, que é uma vitrine importante. O festival decidiu me colocar em Um Certain Regard. Fazer a abertura da seção é uma honra. E posso discutir o filme com amigos, a imprensa, sem a pressão que acompanha a disputa da Palma.

Confesso que gosto de alguns de seus trabalhos mais do que outros (os mais antigos), mas se há uma coisa que não nego é sua assinatura. Como é seu método?

No começo de minha carreira, quando fiz Mala Noche, eu trabalhava com storyboard. Mas a produção era barata, a câmera, pequena. Tudo se prestava a isso. Hoje em dia, confio mais no meu instinto e defino o plano no próprio set. Às vezes, improviso com os atores, mas, no caso de Restless, quase não houve improvisação. Mia e Henry, na maior parte do tempo, seguiram fielmente o script.

Ele tem momentos que evocam seu pai, quando jovem. Como escolheu Henry Hopper?

Henry foi uma indicação da minha diretora de casting. Ela já havia tentado apresentá-lo antes para mim, mas as condições não eram favoráveis. Desta vez, deu para ver que ele era perfeito desde o começo. Henry tem o talento, a sensibilidade de Dennis, mas não a sua loucura. Espero que faça uma bela carreira, porque condições não lhe faltam.

QUEM É:

GUS VAN SANT

Também roteirista, nasceu em 1952 em Louisville (EUA) e se formou pelo Rhode Island School of Design. Em Cannes, ganhou a Palma de Ouro de diretor por Elephant (2003). Quanto ao Oscar de direção foi indicado por Gênio Indomável (1997) e Milk - A Voz da Igualdade (2009).

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