Em campo minado

Em Alemão, a ocupação das favelas cariocas ganha ares de faroeste

FLAVIA GUERRA / RIO, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2013 | 02h10

Em uma madrugada de sexta para sábado, uma viela de uma super populosa favela carioca é tomada por uma pequena multidão, que se reunia para assistir a um duelo entre a polícia e traficantes locais. Uma garota é feita refém e tem sua vida negociada entre um dos chefes do crime local e um policial à paisana. A ação bem poderia fazer parte do cotidiano violento de uma das tantas favelas brasileiras - não fosse a ocorrência uma das cenas cruciais de Alemão, novo filme do diretor José Eduardo Belmonte e do produtor Rodrigo Teixeira, cujas filmagens ocorreram em várias comunidades do Rio, como Rio das Pedras (que abrigou a cena em questão), o Complexo do Alemão, o Chapéu Mangueira e um colégio no Alto da Boa Vista.

Encerradas há duas semanas, as filmagens trouxeram atores como Milhem Cortaz (Branco), Caio Blat (Samuel), Gabriel Braga Nunes (Danillo), Otávio Muller (Doca) e Marcelo Melo Jr. (Carlinhos) no papel de quatro policiais disfarçados e infiltrados no Morro do Alemão que, sob o comando de Valadares (Antônio Fagundes), trabalharam na histórica operação de ocupação das comunidades do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, em novembro de 2010.

Já em sua concepção, Alemão se mostra uma rara experiência de "faroeste à brasileira", como bem gosta de ressaltar Belmonte. Não pertence ao famigerado gênero "filme favela", não é um policial e muito menos um filme de ação convencional. "Há uma dimensão humana nestes policiais. Eles possuem dramas como o fato de que a garota refém é irmã de um dos chefes do tráfico e namorada de Carlinhos. Ao decidir se devem ou não negociar a vida da garota, mais que uma ação policial, é a vida do amigo e parceiro que estes policiais têm de decidir", comenta Belmonte.

Diretor de longas como A Concepção, Se Nada Mais Der Certo e Billy Pig, o paulista Belmonte se mostrava à vontade conduzindo um tema distante de sua realidade. "Gosto de experimentar os gêneros. Este é um tema do qual sempre fugi um pouco. Nosso abismo social é, de certa forma, o grande tema do cinema nacional. Mas jamais pensei em fazer um filme assim. Logo eu, que comecei a filmar histórias intimistas", contou ele ao Estado, pouco antes de rodar "a cena da pizzaria" e partir para a "cena da viela".

A pizzaria, a propósito, é cenário crucial da trama. É lá que os quatro policiais se refugiam quando, três dias antes da ocupação oficial, os traficantes descobrem sobre sua operação e começam a caçá-los. Se a trupe dos policiais tem Blat, Braga e Cortaz em sua lista de presença, a do tráfico tem Cauã Reymond, que vive o líder Playboy, temido criminoso da região. "Este elenco é tão interessante quanto a escolha de Belmonte para assinar a direção. O Cauã é um grande ator. Muito aplicado, muito estudioso. E nossos policiais ganham uma carga humana e dramática com o desempenho dos atores escolhidos. Estamos muito felizes. E é mais uma prova de que nada neste filme é óbvio", diz Teixeira. "Foi uma experiência muito intensa, em que aprendemos sobre o nível de comprometimento e entrega de cada policial, sobre sacrifícios, do que eles abrem mão nesta história", comenta um exausto, mas feliz, Caio Blat ao final de uma das cenas mais tensas da trama.

A ideia de Alemão começou de um antigo desejo de Teixeira, que casou perfeitamente com a realidade. "Em outubro passado, eu assistia a uma matéria na TV sobre a ocupação do Alemão. E percebi que este pano de fundo encaixava com uma ideia que está na minha cabeça há muito tempo. Era a ideia de quatro policiais entocados em campo inimigo, como se fosse um filme de terror, em uma situação extrema, bem inspirado em Cães de Aluguel e Um Dia de Cão. Neste caso, o campo minado é a favela cercada", relembra Teixeira, que à frente da RT Features (de Quando Eu Era Vivo), convidou Gabriel Martins para assinar o roteiro. "Em um mês ele tinha um roteiro. Em menos de seis meses já estamos filmando. E em menos de um ano, em 8 de novembro, este filme já estará em cartaz", informa o produtor, que conta com a distribuição da Downtown Filmes.

O segredo para concluir o projeto em tempo recorde é a dinâmica de produção. "Este é um tema que pede urgência. E ação é gênero que faz falta no Brasil. Filmamos e vamos finalizar com cerca de R$ 4 milhões. O aporte inicial para filmar veio de três sócios investidores diretos. E vamos captar outra parte por meio verba incentivada. É uma boa combinação. Se fôssemos esperar por todo o processo de leis de incentivo, o assunto esfriaria. Cada vez mais queremos produzir assim."

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