Em Cafarnaum

1. E aconteceu que chegou a Cafarnaum a notícia de um homem que transformava água em vinho. O estranho homem estivera numa festa de casamento em Canaã, na província da Galileia, e ao ser informado de que acabara o vinho, mandara encher seis talhas de pedra com água, e transformara a água em vinho. E a notícia se espalhara por toda a região, e chegara a Cafarnaum.

Luis Fernando Veríssimo, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2010 | 00h00

2. E aconteceu que um homem entrou na venda de Guizael, em Cafarnaum, e Guizael achou o homem estranho, e deduziu que aquele era o homem que transformara água em vinho, em Canaã. E Guizael agradeceu a Deus por ter levado o homem a Cafarnaum, e ofereceu comida ao homem estranho: pão, peixe, coalhada e um copo de água. E Guizael piscou um olho para o homem estranho, e disse: podes transformar esta água no que quiseres, para acompanhar o jantar.

3. E o homem sorriu, e tocou a borda do copo com um dedo, e a água se transformou em vinho. E Guizael foi tomado de grande alegria, e disse: tens um grande poder. E o homem disse: ainda não viste nada, E tocou o pão com um dedo, e o pão se multiplicou, e o balcão da venda de Guizael se cobriu de pães. E o homem tocou o peixe, e os peixes também se multiplicaram. E assim aconteceu com os potes de coalhada. E Guizael exultou.

4. E Guizael propôs um negócio ao homem estranho. Uma pareceria na venda. Ele multiplicaria os potes de coalhada, e os pães, e os peixes, e transformaria a água em vinho, e Guizael economizaria na farinha dos pães e no leite da coalhada, e não dependeria mais dos seus fornecedores de peixes e de vinho. O homem só entraria com o seu dedo milagroso, e em troca teria direito a 20 por cento do faturamento da venda.

5. O homem sorriu e disse que sua missão era outra. Que estava no mundo para multiplicar o número de crentes em Deus, e para transformar não água em vinho mas o coração e a mente das pessoas, e que o único lucro que buscava era a salvação da humanidade. Trinta por cento, disse Guizael. O homem sacudiu a cabeça. Não se interessava pela riqueza, sua glória não seria deste mundo.

6. Fifty-fifty, disse Guizael, ou o equivalente em aramaico. E vendo que o homem hesitava, prosseguiu: aquela sua missão não acabaria bem. Mudar o coração e a mente das pessoas, o que era aquilo? Ele acabaria preso como agitador, talvez até executado. E sua pregação seria em vão. Seu sacrifício não mudaria nada. Mas se ficasse em Cafarnaum e aceitasse a proposta de Guizael, o homem teria uma vida longa e feliz. Cafarnaum não era o mundo, mas era uma um lugarzinho simpático, ótimo para se criar os filhos.

7. E o homem aceitou a proposta de Guizael para ficar em Cafarnaum. E disse: sabes, claro, que isto vai mudar a história da humanidade. E disse Guizael: a humanidade não merece mesmo. E o homem sorriu, e tocou o copo com seu dedo outra vez, e trocou o vinho tinto em vinho branco, para acompanhar o peixe.

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