Em cada palco, um mundo

Em cada palco, um mundo

Diferentes na maneira de fazer música, Nana Caymmi e Maria Bethânia discutem estilos - e se unem ao criticar documentário

JULIO MARIA / RIO, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2013 | 02h12

A falta dos pais é uma abismo que nunca se fecha na alma de Nana Caymmi. Se fala muito, chora. Se fala pouco, sufoca. Antes do palco, sente as pernas tremerem e segue para o microfone com abismo no peito e tudo. Dá então uma mão para o pai, outra para a mãe e os sente lá, a seu lado. "Estou hoje exatamente como estava quando perdi os dois. Meus dias são péssimos."

Com participações especiais de Maria Bethânia, Nana fala de música, vida, filme e Caymmis. E é melhor não esperar diplomacias e complacências com aquilo que lhe acerta o calo dos pés. Suas ideias francas norteiam toda uma conversa que poucos conseguiriam sustentar: afinal, quem mais além de Nana Caymmi poderia mandar o diretor do documentário sobre sua pessoa para aquele lugar?

Nana, suas fraquezas aparecem no documentário, uma insegurança incrível antes de entrar em cena. Ainda é assim?

Sim, porque no palco tem conserto. Sei que é emocionante, é a voz trêmula, o engasgo, o pigarro até que o primeiro gole de uísque desça. Não estou preocupada com nada, mas com a forma como vou me criticar.

Você fala da importância das entradas das canções...

Sim. Se eu não tiver isso, não tenho nada. Minha diferença com Bethânia é que se a letra para ela estiver bem, ela pode deixar que a música seja um pouco inferior. Já eu não sei deixar... Para mim, a música tem o mesmo valor da letra, para mais. Primeiro eu ouço a música, depois eu vou ver o que a poesia está dizendo.

Você é mesmo uma "fingidora", como diz no filme?

Claro, a vida é do fingidor. Mas vou te contar que tudo neste filme é passado no final da vida dos meus pais. Eu sabia ali que não iria ter mais pai nem mãe, e fiquei me esquivando do Gachot porque eu não queria expor meus pais. Não deixei ele entrevistá-los. Eu estava em uma fase terrível. O filme rodando, eu querendo mandar ele à merda, querendo acabar com ele. Eu não queria saber de filme até o dia em que ele me fala que o câmera dele, que fumava como um condenado, estava com um câncer no pulmão. Isso me chantageou, me tocou profundamente.

O filme lhe mostra como você gostaria?

Cada hora vejo uma coisa que não havia percebido. Na última vez que assisti, estava na hora em que eu fico vendo as árvores caídas, morrendo de velhice, e pensei: "Eu também sou uma árvore, estou envelhecendo. Dei frutos, dei flores..."

E como você está hoje?

A mesma de 2008, quando perdi meu pai e minha mãe. Meu dia a dia é péssimo, eu não tenho mais para quem ligar.

Mas sobrou a música.

A música. Canto muito para mim mesma, mas isso não me dá tesão necessário para preencher o vazio da minha perda.

O vazio está com você no palco?

Já sai do camarim comigo. Entro no palco de mãos dadas com meu pai e minha mãe. A coisa mais bonita do filme é rever meu pai. E eu não deixei minha mãe aparecer. A velhice para algumas pessoas é dura, mas não é esse meu problema. Meu problema é que as coisas não são como eu gostaria que fossem quando eu ligava o rádio e ouvia Tito Madi, Lucio Alves. Estou em uma época errada, no mundo errado. Eu penso: "Será que um dia eu vou encontrar meus pais aqui sentados e eles vão falar comigo?" Tanta gente vê fantasma e eu não vejo porra nenhuma. O Gachot soube captar isso.

Bethânia: Ele sabe o que quer...

Nana: Mas Bethânia, eu vi o filme a primeira vez. Quando ele me mostrou a segunda, já era outra coisa. Eu queria matar ele, várias vezes. Para mim já estava bom, não tinha o que inventar mais...

Bethânia: Eu sei o que é....

Nana: Ele fez parar tudo porque achava que não tinha falado da novela (a importância das trilhas da novela em sua carreira). Aí ele se deparou com a pior coisa que pode acontecer: a cara das pessoas conhecidas que poderiam processá-lo. Ou seja: direito de imagem. Uma infantilidade. Aí o filme para tudo. E eu: "O que foi dessa vez, Gachot?"

Bethânia: Eu tenho isso também. Estava ok, mas se virou para o lado não é mais aquilo. O que há é uma sede no mundo de querer tudo. Todo mundo quer tudo. Sinto que a gente faz coisas tão de verdade que aquilo pode não estar limpinho, mas é a gente. Mas isso acontece em disco, em show, em cinema, em tudo...

Nana: Você não tem noção... Se eu trato ele desse jeito é porque tenho motivo. Vou matar ele.

Bethânia: (Risos)

Nana: Eu disse a ele: "Não me apareça mais para entrevista, você é um homem morto". Eu sabia que ele ia mudar tudo, fiquei doente. Foi aí que ele veio com aquela história do cinegrafista doente dele! Foi aí que eu voltei, a Amélia que chora à toa, já me comovi, e topei.

Bethânia: Mas dá uma dor quando a gente vê que mexeu e que estava tudo bem.

Nana: Bethânia, estava tudo certo, tudo. Ele tinha colocado Tom Jobim como ele queria. Aí ele vai e muda tudo!

Bethânia: Eu também encrespei com ele.

Nana: Ele mudou o que eu vi. Ele perdeu tanto para mim, você não tem noção!

Mas qual era a intenção dele?

Nana: Ele queria mostrar para o europeu que existe uma cantora de câmara mezzo lírica no Brasil, desse porte.

Bethânia: E que isso popularmente acontece também. O foco dele é esse porque ele é especialista em música erudita. Por isso ele pirou quando ouviu a Nana. Então é normal que ele queira dizer que o Brasil é tão extraordinário que tem uma cantora assim. O cara apaixonado cantando Nana na rua. Mas não precisa, porque era ela o enredo do filme. Se para ela está pronto, não tem o que mudar, mesmo que ele sofra. Mas vai ser sempre assim, na música, cinema, teatro.

Se o diretor fosse brasileiro, esse seria outro documentário?

Nana: Se fosse brasileiro, não teria feito nada.

Bethânia: Ele filma o Rio de uma forma que nunca vi um brasileiro filmar.

Nana: Jamais um brasileiro pensou em fazer um filme sobre Nana Caymmi

Bethânia: Nem sobre Bethânia.

Além de verem o Rio diferente, os estrangeiros ouvem vocês de maneira diferente?

Nana: Ele é clássico e nós somos clássicas.

Bethânia: Cada uma na sua praia...

Nana: Mas o que você faz é clássico. E é tão clássica quanto eu, porque você joga o seu sentimento tanto quanto eu jogo. Se o ritmo é outro, se a coisa é outra, se você alça outros...

Vocês se acham divas?

Bethânia: Essa palavra nem cabe aqui...

Nana: O povo me chama de Dona Diva. Não tô nem aí!

Bethânia: Já a mim me chamam de Dona Onça (risos).

Acha pejorativo, Bethânia?

Bethânia: Acho que é antigo, caretinha. Porque atrás vem um nojo, uma raiva, eu não gosto. Eu prefiro Bethânia. Vocês (jornalistas) estudados, por exemplo, quando vocês falam isso tem atrás um pé no chão.Nana: Já no meu grupo, diva é mandona, filha da p.... E pode me chamar porque eu sei o que eu quero. Eu tive que lutar para ser uma pessoa que sabe o que quer, na música e na vida. A primeira mulher que botou o copo de uísque no palco, minha água, meu santo, meus óculos, meus papéis e aquela minha pasta na frente, que sabendo ou não a letra eu quero ter minha pasta na frente. O palco é meu e ali ninguém fala nada. A Bethânia cada show é uma coisa, eu faço a mesma coisa há 50 anos.

É difícil dividir o palco?

Bethânia: Eu gosto de dividir o palco com algumas pessoas, mas cada vez menos, porque cada vez o palco fica mais meu. Eu preciso dele todo.

O que vocês fariam se lançassem uma biografia não autorizada de vocês?

Nana: Até hoje eu discuto muito a atitude do Roberto Carlos. Biografia é biografia, se nego quer falar, fala, qual o problema? Como também aquela proibição da família do Garrincha, eu não tenho problema, até porque tenho uma filha biógrafa. Agora se vier uma mentira, meu amor, eu lasco um processo que é um jegue.

Bethânia: Eu não sou muito entusiasmada com negócio de história, não. Ainda mais se a pessoa morre, vira museu, me dá uma agonia... Sagrado e profano? Público e privado? Isso já acabou há muito tempo. As pessoas escrevem o que querem e estão cada vez mais ignorantes.

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