Em busca do entendimento

'Ajami', destaque da Mostra Audiovisual Israelense, que começa hoje, prova que palestinos e ortodoxos podem ser solidários

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2010 | 00h00

 

Ajami, atração de hoje. Os próprios diretores são a prova de que a convivência é possível: Copti é palestino; Shani descende de família de judeus ortodoxos

 

 

Clima de fim de festa no Festival de Cannes de 2009. É domingo e os jornalistas esperam pela premiação. Todos arriscam seus prognósticos sobre as escolhas do júri presidido pela atriz Isabelle Huppert, mas há um consenso de que ela vai premiar A Fita Branca, de Michael Haneke (e a previsão se confirma). Realizam-se as últimas entrevistas. O repórter do Estado tem sorte. Deveria participar de um grupo com a dupla Scandar Copti e Yaron Shani, cujo filme - Ajami - fez sensação na Quinzena dos Realizadores. Ajami é sobre este bairro na antiga cidade de Jaffa, que foi incorporada a Tel-Aviv. Nele coexistem judeus ortodoxos, palestinos e cristãos.     Apesar das diferenças, e das tensões eventuais, compõem uma comunidade multicultural baseada na tolerância. Os próprios diretores são a prova de que a convivência é possível, sim. Copti é palestino, um árabe judeu. Shani descende de uma família de judeus ortodoxos. A entrevista deveria ser em grupo, mas os demais integrantes não apareceram, nem os do grupo seguinte. O repórter conversa durante quase uma hora com a dupla. Mais tarde, o filme foi indicado para o Oscar (que o argentino O Segredo dos Seus Olhos venceu). Copti e Shani ainda não sabiam disso, claro, nem que Ajami seria visto por 200 mil espectadores em Israel, um verdadeiro fenômeno. Ortodoxos vendo um filme sobre palestinos, e vice-versa. Agora, Ajami é uma das atrações anunciadas da 3ª Mostra Audiovisual Israelense, que começa hoje.

Confesso que não imaginava que um ortodoxo e um palestino pudessem fazer um filme juntos. Como surgiu a parceria?

Scandar Copti: É um pouco a prova da realidade que mostramos em Ajami, sobre Ajami. A vida baseada na convivência. Mas, respondendo objetivamente a sua pergunta, o cinema surgiu meio por acaso na minha vida. Havia me formado, e graduado, em engenharia mecânica, mas logo descobri que não tinha vocação e que não exerceria a profissão. Yaron (Shani) poderá lhe contar melhor que eu, mas ele estudou cinema. Sempre gostei de ver filmes, mas não encarava isso como uma possibilidade de profissão. Foi quando Yaron desenvolveu seu projeto - ele entregou câmeras a cinco pessoas de Ajami, e eu era uma delas.

Qual era o objetivo?   Yaron Shani: Bem no começo, a ideia ainda vaga era mostrar a mesma situação vista pelo ângulo de diferentes pessoas. Mas o projeto foi evoluindo até chegar à forma definitiva de Ajami. A forma, em si, foi o que menos mudou, porque sempre quis contar uma história dessa maneira, unificada por um filtro, o olhar de um personagem, mas que desse conta da complexidade do mundo e da diferença entre as pessoas. Scandar foi fundamental porque ele sempre escreveu muitas histórias, baseadas na observação. O que fizemos, ao longo de três anos e meio, foi ajustar a minha estrutura às histórias dele.

Algumas dessas histórias são tão verdadeiras que parecem roubadas à realidade. A cena do tribunal, por exemplo. Como ela foi feita?

Copti: Filmamos com um juiz de verdade e só ele sabia que era uma ficção. Inclusive, o juiz justificou a presença da equipe de filmagem, dizendo que se tratava de um especial para televisão. A maioria de nossos atores, senão todos, era formada por não profissionais. Os policiais são interpretados por ex-policiais e o traficante que faço possui características minhas. Yaron e eu temos gostos muito aproximados em cinema. Vimos muitos filmes de Ken Loach na fase de preparação de Ajami. Nos encanta a maneira como ele, mesmo quando trabalha com profissionais, esconde o roteiro para provocar determinadas reações diante da câmera. Nossos atores não recebiam roteiro, mas explicávamos cada cena e abríamos espaço para que improvisassem. Uma certa dose de manipulação é aceitável e até necessária, mas procuramos restringir os truques até porque não nos parecia correto enganarmos nossos colaboradores e espectadores.

O filme é sobre os pontos de vista diferentes de pessoas que vivem a mesma realidade. Como vocês dois resolveram as tensões na hora de dirigir?

Copti: Da maneira mais fácil possível. Represento desde menino e, quando estou frente às câmeras fazendo meu papel, Yaron é quem está no comando do barco.

Shani: Quando as pessoas assumem que têm diferentes pontos de vista e passam a acreditar que o delas é o certo, sentem-se liberadas para fazer coisas horríveis, coisas violentas, e é isso que você vê todo dia, e não apenas aqui no Oriente Médio. O grande desafio é aquilo que nos propomos fazer, que é andar nos passos dos outros, do próprio inimigo. Se você tem essa habilidade, começa a olhar o outro como um ser humano, não como o objeto do seu ódio, passível de destruição. Quando menos se julga as pessoas, mais chances temos de entendê-las. E o diálogo vem do entendimento, da busca do entendimento.

Qual é a posição individual de vocês em relação à situação sempre explosiva do Oriente Médio?

Shani: Somos a prova de que os opostos podem se entender e dialogar. Muita gente não aguenta mais a violência da região e gostaria de ver nossos políticos encontrarem uma solução pacífica, mas existe a questão do poder. Governantes, partidos, fazem da exploração da paranoia o combustível para sua permanência no poder. E isso, sim, não é ético.

Copti: O cinema é um instrumento muito poderoso de humanização e conscientização. Já tivemos a experiência de ver palestinos radicais sofrendo com o personagem do policial judeu em busca de vingança porque eles também vivenciaram, e vivenciam, situações similares. Esperamos que o filme fale por si, mas, pessoalmente, acredito que estamos chegando a um limite e não vai ser possível continuar com a cabeça enterrada na areia, como se não estivesse ocorrendo nada. Esse Estado racista e violento, que faz da ocupação uma política permanente, não me representa. Sonho com um Estado verdadeiramente democrático - este, não é - que entenda nossa multiplicidade cultural e crie um espaço liberal para todos. Ajami é um microcosmo do Oriente Médio. Todas essas etnias e religiões têm de aprender a conviver. Caso contrário, viveremos em guerra até o fim dos tempos, ou até que um grupo consiga eliminar o outro. A quem serve isso?

    QUEM SÃO?   YARON SHANI e SCANDAR COPTI, cineastas     O primeiro é filho de judeus ortodoxos, o segundo é um árabe israelense que descende de palestinos. Em Cannes, 2009, quando Ajami passou na Quinzena dos Realizadores, Copti já criticava o Estado de Israel. No Oscar, foi mais longe e disse que gostaria de romper com o Estado que não o representava.

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