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Humberto Werneck
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Em busca do biscoito perdido

Cada Marcel Proust tem a madeleine que merece, e a minha, se eu merecer, é a mulha.

Humberto Werneck,

15 Setembro 2013 | 02h23

Não adianta procurar no dicionário, onde essa esquisitice verbal poderia ocupar o espaço ainda vago entre "muletim" e "mulher". Aos lexicógrafos de plantão: mulha, substantivo incomum, é como se chama, exclusivamente na minha família paterna, um biscoito redondo e achatado, com uns 5 centímetros de diâmetro, um furo no centro e a superfície pisada por um garfo que imprime sulcos à maneira de raios de sol. Se chegar um dia ao dicionário Houaiss, que se empenha em datar o nascimento das palavras, caberá informar que a mulha surgiu no início da década de 1930, em circunstâncias capazes de explicar a sua denominação.

Meu avô paterno, o médico carioca Hugo Furquim Werneck, teve, ainda moço, uma tuberculose pulmonar que o levou a um sanatório suíço e, em seguida, aos outrora bons ares de Belo Horizonte, cidade de prancheta que na sua chegada mal somava nove anos de idade. Por lá ficou e criou família - o que faz de mim, conforme já contei, um descendente do bacilo de Koch.

Pois bem, esse operoso cirurgião construiu um sanatório nas imediações da cidade, e para tocá-lo engajou um lote de freiras alemãs, algumas das quais, embaladas nos hábitos azuis das Servas do Espírito Santo, ainda alcancei, mais ativas que contemplativas, na década de 1950. Entre outras artes, elas compunham, com casca de ovo moída e tingida, lindos tapetes multicoloridos sobre os quais, coroinha, eu tinha pena de passar nas procissões de Corpus Christi.

Um dia, diz a lenda familiar, uma das religiosas assou uns biscoitos e os levou para o doutor Hugo provar. "Muito duro, irmã", avaliou ele - ao que a freira recomendou, no seu português germânico, apontando para xícara de café com leite: "Mulha, doutorrr Huga!" Pronto: este ficou sendo o nome daqueles bocados, que sobreviveriam por décadas ao vovô, morto em 1935. Em algum momento, porém, minha mãe parou de avisar que tínhamos uma lata de mulha - e a guloseima, para mim, transitou do plano gustativo para o sentimental, onde já não sei que sabor teria.

Não apenas para mim: nos últimos dias, carente talvez de alguma madeleine pessoal que, com seu poder de desempoeirar lembranças, como se passou com Proust, venha conferir substância e gosto à minha prosa chinfrim, andei cutucando a memória também de primos e irmãos - e o que me veio e continua a vir, via internet, permite constatar a existência de uma generalizada e salivante saudade da mulha. Uma urgência de mulha - e você sabe o que eu quero dizer, pois não há família que não tenha, na despensa da memória, algum petisco aposentado.

De repente, senhoras e senhores (alguns, se bobear, já a caminho da bisavoíce) deixaram de lado graves preocupações e se puseram, no triângulo Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, a trocar informações sobre um biscoito que, segundo a Beatriz, era "gostoso, seco, farinhento". A mesma Beatriz desencavaria a receita, obtida junto a nossas primas Campello. "Tinha um levíssimo cheiro de erva doce ou era impressão minha?", farejou o Rodrigo. A mulha era "de um marrom bem escuro", atestou do Rio o professor Rogério, momentaneamente esquecido das ciências econômicas de que é autoridade. "Deliciosa!", limitou-se a suspirar a Hortense. Levava araruta, como afirmou a Marina? A receita original, detalhou a Cecília, "era à base de manteiga batida pela irmã Águeda com a nata, deliciosa, extraída do leite da nossa fazenda".

Com o mesmo apetite com que desencava remotos tios tortos, o Ruy, genealogista da família, a certa altura deu um tempo na mulha e pôs na roda outra de nossas madeleines, a Tigelinha - e com ela uma dúvida: seria parente ou a própria crème brûlée? A conferir, agora que a Regina nos mandou a receita de Tigelinha. "Gente", comentou ela, "será que viemos do Ceará, como a vovó dizia? Ultimamente só pensamos em comida..."

Entre promessas de ressuscitar gostosuras, o papo continua, e sinto no ar, tantos anos depois, uma iminência de mulha, a ser materializada, quem sabe, aqui em São Paulo pela Mariza, que em boa hora adicionei à conversa, ou pelo Paulo e a Luiza, quituteiros que nem a mãe. Se de uma hora para outra minha prosa apresentar melhoras, você já saberá o que foi que me aconteceu.

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