Em busca dio amor de pai

Charles Fricks, ator, e Daniel Herz, diretor, falam da peça O Filho Eterno, baseada em livro de Cristóvão Tezza

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2012 | 03h08

Durante os ensaios do monólogo O Filho Eterno, o ator Charles Fricks chegou a confessar seu temor ao diretor Daniel Herz: "O público não vai assistir até o fim". Estreada a peça, a amiga Zezé Polessa iria lhe confidenciar, ao fim: "O tempo todo eu dizia para mim mesma que só ficaria mais cinco minutos".

O incômodo é justificável pelas verdades bravas e doídas ditas pelo pai do filho com Síndrome de Down em cena. "Ele vai morrer logo", torce, o olhar de ódio, para livrar-se do estorvo recém-descoberto. "Os mongoloides são crianças feias, próximas do nanismo, pequenos ogros de boca aberta. A língua é muito grande. São pessoas achatadas, como troncos", descreve a cria.

Charles não tinha lido o livro (autobiográfico) de Cristovão Tezza, colecionador de prêmios (Jabuti, APCA, Portugal Telecom, etc). A vontade de "descobrir o prazer de um monólogo", dirigido por Daniel, com o suporte de sua companhia, a Atores de Laura - há 20 anos juntos, e pela primeira vez encenando um monólogo -, já existia. Assim como a inclinação a lidar com literatura. Foi o amigo Pablo Sanábio, ator também, quem deu a dica. A adaptação, que muito comoveu Tezza, é de Bruno Lara Resende.

"Quando li, fiquei impressionado de falar aquelas coisas, é a época do politicamente correto", conta o ator. "Descobri que ninguém vai embora porque vê que aquilo é humano. O público se coloca no lugar daquela pessoa. Certa vez, um senhor falou ao meu ouvido, me abraçando forte: 'Eu já vi esse filme'."

A peça, até 25 de fevereiro no Teatro do Leblon, deu a Charles nova indicação para o Prêmio Shell (ele já havia concorrido com As Artimanhas de Scapino, em 2003). A performance é, de fato, de se premiar. Comovente, precisa, digna dos atores enormes. Daniel retesou a corda, levou o personagem ao limite da sordidez, da solidão. A curva dá, por fim, no amor, na compreensão de que a raiva não é do filho deficiente, mas da própria incapacidade de lidar com o diferente, o inesperado.

A plateia se choca, se revolta, se condói. O isolamento - o sofrimento não é compartilhado com a mulher, a quem acusa de ser a "culpada" pelo "desastre" - é sublinhado pelo vazio no palco: tudo o que o ampara é uma cadeira. Só nos estertores, quando o clima já é de conciliação, o pai traz outra cadeira à luz. É o filho, já crescido, que se aninha.

"Nos ensaios, eu dizia a ele: 'Você tem que ir mais fundo!' O que é fascinante é conseguir humanizar a imagem desse homem, que passa pelo sofrimento narcísico de o filho não ser como ele", diz Daniel. "Existe uma sombra no trabalho de um ator como o Charles que faz com que você veja que o próprio personagem está dizendo: 'Tem alguma coisa errada comigo'."

Indicado para o Shell também pela direção de movimento e a luz, O Filho Eterno estreou no Rio em junho e fez seu público de 7 mil pessoas no boca a boca. Para março, está se acertando uma unidade do Sesc em São Paulo.

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