Em busca de uma 'Língua ideal'

MAURICIO SANTANA DIAS

MAURICIO SANTANA DIAS É PROFESSOR DE LITERATURA ITALIANA NA USP, TRADUTOR, AUTOR DE A DEMORA: CLAUDIO MAGRIS, DANÚBIO, MICROCOSMOS (LUMME), ENTRE OUTROS TRABALHOS, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2012 | 03h10

Ao leitor de hoje, um romance do século 19 intitulado Os Noivos pode dar a entender que se trata de uma obra que envelheceu mal, ficou ultrapassada, toda feita de sentimentalismos românticos e lances de melodrama. Nada mais distante do "espírito" de Alessandro Manzoni, que, com esse livro, escreveu não só um dos melhores romances históricos de que se tem notícia como também fundou a moderna prosa de ficção em língua italiana.

Em uma conversa de Goethe com Eckermann, datada de 18 de julho de 1827 - portanto, logo após a primeira edição de Os Noivos em três tomos - que Manzoni enviara ao escritor alemão com uma dedicatória - este avaliou o romance do italiano nos seguintes termos: "O livro de Manzoni sobrepuja tudo o que conhecemos nesse gênero. A cultura do espírito de Manzoni aparece no seu romance em tal elevação que dificilmente será igualada, e agrada-nos como um saboroso fruto maduro". Indagado por Eckermann se o livro não seria demasiado sentimental, Goethe respondeu: "Absolutamente. Tem sentimento, mas nenhum sentimentalismo".

O juízo entusiasmado do autor de As Afinidades Eletivas foi seguido por escritores e críticos os mais diversos - Poe, Hofmannsthal, Croce -, e, entre nós, a obra manzoniana recebeu o elogio de muitos nomes, sendo o mais exaltado o de Otto Maria Carpeaux, que afirmou: "Entre todos os romances escritos à maneira de Walter Scott existe um único que é uma grande obra de arte, I Promessi Sposi, de Alessandro Manzoni, o maior romance da literatura italiana".

Mas a história dos noivos Renzo e Lucia, camponeses da primeira metade do século 17 que se veem impedidos de casar por um capricho do rico e prepotente dom Rodrigo, está longe de ser uma unanimidade, embora todos reconheçam seu caráter fundador.

Valendo-se do velho estratagema ficcional do manuscrito encontrado e transcrito pelo autor, Manzoni, na introdução ao romance, começa imitando o estilo e a ortografia do cronista seiscentista que teria recuperado um episódio amoroso ocorrido na Lombardia entre 1627 e 1630, então ocupada pelos espanhóis. Porém, num lance genial, Manzoni logo deixa a transcrição do suposto texto fonte e passa a traduzi-lo numa língua italiana que pudesse ser entendida pela média dos leitores da Península.

A partir daí, os 38 capítulos da obra se sucedem com uma precisão de relojoaria, não só no que diz respeito ao encadeamento da trama - cheia de peripécias, com revoltas populares, sequestros, conversões, guerra e a peste negra que devastou metade dos habitantes de Milão -, mas também na atenção aos vários registros falados por personagens ficcionais e históricos, dos mais populares aos do alto clero e da nobreza.

Durante cerca de 20 anos Manzoni escreveu e limou esse que seria seu único romance - numa obra que inclui odes e hinos sacros, tragédias e estudos históricos -, sempre buscando aquilo que ele considerava "a língua literária ideal" dos italianos, em cujo centro estaria o dialeto toscano e mais especificamente florentino. De fato, na edição definitiva do livro (de 1840-42), as marcas do dialeto milanês, abundantes na primeira edição, como que desapareceram em favor do projeto linguístico manzoniano, que tanto favoreceu o sucesso do romance, como desencadeou polêmicas numa Itália ainda não unificada e fortemente dividida no plano linguístico.

A despeito das objeções que sofreu por parte de linguistas e de uma crítica laica, que via no humanismo católico de Manzoni uma força regressiva - Gramsci, por exemplo, não tolerava "o caráter aristocrático do catolicismo manzoniano" -, Os Noivos é um clássico incontornável, que estava a merecer uma nova edição brasileira, enfim, completa e bem cuidada como é esta do tradutor Francisco Degani.

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