Em busca de uma carreira de frases

Fazer música e brigar com o Vaticano. Eis as duas 'proezas' pelas quais Sinead O'Connor diz que quer ser conhecida

RAVI SOMAYIA , THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2012 | 03h08

Na frente da casa de Sinead O'Connor, numa praia varrida pelo vento, em frente do Mar da Irlanda envolto em brumas, há dois talismãs: a estátua da Virgem Maria e um aviso dirigido aos repórteres que andaram sitiando a cantora, seus quatro filhos, três cachorros e um gato nas últimas semanas: "Queridos jornalistazinhos. A palavra é: Rock-n'-roll!".

Quando ela abriu a porta para nós, um dia destes, usando uma camiseta com as palavras Propriedade de Jesus, parecia fatigada. "Estou cansada, como nunca estive na minha vida", explicou. Tudo começou, ela disse, quando resolveu que, depois de ficar por mais de 20 anos em evidência no noticiário - o episódio mais memorável foi quando rasgou uma imagem do papa no Saturday Night Live, em 1992, em protesto contra o abuso sexual de crianças na Igreja católica -, não mais permitiria que o mundo a impedisse "de ser ela mesma", e não negaria a si mesma o prazer da conectividade instantânea da internet.

No verão do ano passado, colocou em seu site um anúncio em que procurava um homem. No dia 8 de dezembro, o do seu 45.º aniversário, ela se casou com um dos jovens que responderam ao anúncio, Barry Herridge, conselheiro de dependentes de drogas, então com 38 anos, e ficou praticamente a noite toda no Twitter. Eles se separaram dias mais tarde. Reconciliaram-se. Voltaram a se separar. Agora, estão juntos de novo.

Cada fase do relacionamento - ela atribui as idas e vindas à solidão das celebridades e ao "excesso de adrenalina, de excitação, excesso de tudo" - foi narrada no Twitter e blogada quase em tempo real, inclusive com as imagens e eventuais telefonemas a um repórter ou a uma rádio, o que contribuiu para alimentar muitas manchetes sarcásticas.

Ela não é a primeira celebridade a ver a luminosidade do rock-n'-roll brilhar até tornar-se uma luz incandescente graças a um smartphone ou um laptop. John Mayer e Courtney Love, entre outros, transmitiram ao vivo seus escândalos pessoais. O colapso de Charlie Sheen, no ano passado, narrado minuto a minuto no Twitter, com frases incisivas, ficaria bem menos convincente por fax. Mas talvez ninguém tenha explorado o potencial da conectividade constante em pleno cataclismo aberto ao público como Sinead.

Há muito tempo ela é notícia por causa de atitudes dramáticas. Em 1999, foi ordenada sacerdote de um grupo católico independente; em 2000, revelou que era lésbica; depois mudou de ideia e tudo é sempre bem divulgado em entrevistas.

Online, ela obedece somente aos próprios caprichos, por mais sombrios que sejam. No dia 11 de janeiro, tuitou um grito de socorro, procurando um psiquiatra. "Estou realmente mal, em perigo", escreveu. Havia tomado um avião para os EUA, onde se apresentaria na premiação do Globo de Ouro, com comprimidos na bagagem e tentou tomar uma overdose, contou numa entrevista.

Ao mesmo tempo, havia o boato de que ela preparava um retorno artístico. Em novembro, mostrou músicas do novo álbum num pequeno show em East London. John Aizlewood, o famoso crítico do jornal The London Evening Standard, informou que a apresentação era "de arrepiar" e lhe deu cinco estrelas.

O novo álbum, How About I Be Me (e You Be You)?, a ser lançado na segunda-feira, funde idealismo e cinismo, amor e perda, em iguais proporções. No seu melhor momento, como na fascinante Reason With Me, equipara-se em intensidade e energia ao seu aclamado álbum de estreia de 1987, The Lion and the Cobra.

Os que a conhecem dizem que Sinead tem uma disponibilidade quase patológica. "É uma pessoa de reações totalmente emocionais, e ser uma pessoa emocional neste mundo às vezes é muito difícil", afirmou John Reynolds, seu ex-marido e há muito tempo seu colaborador. "Mas é por isso que sua música tem um poder tão grande de comunicação. Ela diz o que sente, às vezes de maneira dolorosa."

Sinead não fala mais da tentativa de suicídio, para proteger os filhos dos detalhes. Às vezes, diz, é chamada de louca. "É uma ofensa tão cruel quanto o racismo ou a homofobia." Depois do acidente, ela se internou numa clínica psiquiátrica. Quando saiu, prometeu que nunca mais leria jornais ou veria noticiários. Agora, quando a situação fica insuportável, ela se imagina debaixo de uma cachoeira, limpando-se de todas as suas preocupações, ou então procura um terapeuta.

Hoje, afirma que está lutando com uma dicotomia. Na sua casa, em meio à bagunça de brinquedos e de imagens de Jesus Cristo, encontrou a tranquilidade cuidando dos filhos mais novos, de 5 e 9 anos, e dos seus meios-irmãos mais velhos, de 16 e 24 anos.

Fora dessas paredes, admite que precisa achar uma maneira de conciliar a impulsividade sem limites que definiu sua carreira com as necessidades da família. Ela acredita que o julgamento que os outros fazem de seu comportamento tem a ver com o fato de ser mulher. "Se eu fosse um homem, ninguém acharia que precisaria pedir desculpas por alguma coisa. Ninguém pergunta a Mick Jagger se ele se aquietou."

Até certo ponto, está convencida de que sua vida ainda é o resultado dos maus-tratos que sua mãe lhe infligiu quando era menina. Ela e seus irmãos eram brutalmente espancados e eles viviam sujos, numa condição indigna, contou à revista Spin, em 1991. "Só o ruído dos passos da minha mãe já me dava terror."

Em 2007, ela revelou a Oprah Winfrey sofrer de stress pós-traumático por causa dos abusos na infância: "Tenho de enfrentar isto todos os dias". Ela começou a falar desses problemas depois que a sua música com Prince, Nothing Compares 2 U, ficou no topo das paradas nos EUA e na Grã-Bretanha em 1990, o que a tornou uma estrela e um ídolo de cabeça raspada para muitas mulheres. Seu álbum de 1990, I Do Not Want What I Haven't Got, vendeu milhões de exemplares. Mas tempos depois ela anunciou a sua aposentadoria da música pop, deixou as experiências com o folclore irlandês e o reggae e aprendeu música lírica.

Quando começou o seu blog e a se corresponder no Twitter, no ano passado, teve de encarar o peso da personalidade que ela era. "Os músicos foram enviados à Terra para ajudar as pessoas, então devemos ser imperfeitos, do contrário, como é que elas se identificariam conosco?"

Seu empresário, Fachtna O'Ceallaigh, que a conhece há 25 anos, garantiu que jamais pensou em mudar o modo como Sinead se expressa. "Pensei em todas as belas coisas que ela realizou sempre com a mesma coragem."

Em todo caso, Sinead O'Connor quer apenas as mesmas coisas que todo mundo: um relacionamento feliz, crianças contentes, uma carreira realizada.

Quando nos despedimos, ela nos deu um abraço caloroso. Nos dias depois da entrevista, enviou ao repórter algumas novas ideias, mas sua nova conta no Twitter está acessível somente para os mais íntimos.

"Os que me julgam não têm a menor ideia do grau de solidão que me levou a cometer esses erros", desabafa numa mensagem, na qual também mostra disposição em não passar dos limites porque quer ser conhecida apenas por duas coisas das quais ela continua a se orgulhar: "Fazer música e brigar com o Vaticano". Nada mais. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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