Em busca de uma Albertine perdida

A prisoneira, volume póstumo da recherche de Marcel Proust, ganha edição cuidada e com aparato crítico

Leda Tenório da Motta, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2011 | 03h11

Por muito tempo costumávamos nos orgulhar de que de que, em seu primeiro número, datado de 1941, a Revista Clima já trouxesse um ensaio sobre o romance proustiano. Estamos falando de Marcel Proust e a Nossa Época, de Ruy Coelho, estudo que depois seria transformado em livro.

Na penúria das aproximações locais a Em Busca do Tempo Perdido, investida ainda mais heroica, dada a sua presteza, é uma Proustiana Brasileira, lançada em 1950, por certa Revista Branca, do Rio de Janeiro, dirigida pelo escritor carioca Saldanha da Gama. Trazia trabalhos de Tristão de Athayde, Augusto Meyer, Otto Maria Carpeaux e Sergio Buarque de Holanda, entre outros. O próprio Sergio a resenharia para o Diário de Notícias, lamentando não apenas a ausência de Ruy Coelho, mas o esquematismo dos tratamentos. A resenha está hoje recolhida em seu O Espírito e a Letra.

Entre uma e outra, no final dos anos 1940, soma-se a essas atividades pioneiras a talvez mais importante de todas: a versão para o português do Brasil das milhares de páginas da suma proustiana, por encomenda da antiga e já por isso notória editora Globo, de Porto Alegre. Para tanto, como se sabe, sua famosa Sala de Tradutores congregou um pool de poetas, digno das mais modernas teorias da literatura como rede intertextual: Mário Quintana, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Diz-se até hoje, entre entendidos, que ninguém como Quintana soube enfrentar os efeitos de démodé próprios da imersão proustiana no passado, não fazendo por menos que preferir "azulíneo" a "azul".

Haveria ainda que se falar num Jorge de Lima aqui, num Álvaro Lins ali... Mas por mais que possam ser dignos de nota, todos esses fatos não criam uma cultura proustiana local. Tanto assim que, dificilmente, na segunda metade do século 20, veríamos surgir no País "um livro inteiro sobre Proust". É o que notava Walnice Nogueira Galvão, em 2002, na apresentação a Educação Sentimental em Proust, um desses raros livros inteiros, que era então publicado por Philippe Willemart. professor belga radicado entre nós. Um crítico genético uspiano que se pôs a formar decifradores dos cadernos de notas de que sai o estabelecimento conhecido do romance proustiano - para ele e seu grupo não mais que uma de suas possíveis versões.

O que, sim, começa a fazer cultura, em meio às nossas particulares práticas letradas, em seus altos foros muito mais voltadas para o valor nacional e a reinterpretação do País pelas obras de criação, é bem esse laboratório da USP. E este outro fato novo, do primeiro inseparável: a fantástica febre de releituras de Proust a que dá ensejo a queda em domínio público de À la Recherche du Temps Perdu, desde 1986. É quando a antiga e nobre edição Gallimard-Pléiade dos sete ciclos do romance passa de três a quatro tomos, recuperando variantes reencontradas nos baús dos Proust e que comovem toda a França intelectual. Não por acaso, Willemart trabalha em contato direto com a responsável pela descoberta, a sobrinha-neta de Proust, de dupla estirpe literária, Nathalie Mauriac.

Isso tem tudo a ver com este A Prisioneira que agora nos chega com uma tarja em que se lê: versão definitiva. Não só porque, sendo o primeiro ciclo proustiano a sair postumamente, ele é o que mais se presta a revisões. Nem só porque o desestabilizador manuscrito redescoberto diz respeito a Albertine, personagem em torno da qual gira o tomo. Mas porque Guilherme Ignácio da Silva, que revê, prefacia, anota e resume brilhantemente o volume, é alguém que partiu desse mesmo laboratório para adquirir voz própria, recapitular com altiva liberdade todas aquelas recensões passadas e se tornar um dos nossos mais notáveis proustianos em ação, um novo crítico independente e instigante, com o perdão do pleonasmo. A propósito, além das correspondências invisíveis que assinala entre as distantes partes do romance, veja-se o refinamento de seus rodapés, em que encontramos, por exemplo, que tal trecho de Proust cita tal outro de Tácito.

A notar, por último, que a copresença de Olgária Matos às tarefas de revisão e redação de um segundo belo comentário crítico sobre a vertigem dos ciúmes em Proust não é estranha a todos os acontecimentos. Mesmo antes de responder com Guilherme Ignácio por essa formidável expertise, Olgária já era uma assídua frequentadora da Recherche. Em 1988, na esteira dos eventos ligados ao domínio público, realizou a primeira revisão geral do romance para a Globo. Ora, que vem fazer aqui uma filósofa política - é bem verdade que especialista das delicadezas benjaminianas - senão comprovar que, por muito tempo, costumávamos ter mais vida proustiana inteligente na Filosofia que nas Letras?

A PRISIONEIRA

Autor: Marcel Proust

Tradução: Manuel Bandeira e Lourdes Sousa de Alencar

Editora: Globo

(528 págs., R$ 54,90)

A Sala de Tradutores da antiga editora Globo congregou um pool de poetas - como Bandeira, que assina esta versão

* Leda Tenório da Motta, professora da PUC-SP, é autora, entre outros, de Proust - A violência sutil do riso (Perspectiva).

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