Sérgio Castro/Estadão
Sérgio Castro/Estadão

Em busca de um novo roteiro

Seis meses após o início da auditoria do MinC, Cinemateca Brasileira ainda enfrenta crise

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

27 de julho de 2013 | 13h15

O cinéfilo que for à Cinemateca hoje, além de poder conferir o clássico À Meia Noite Encarnarei no Teu Cadáver, na mostra Horror no Cinema Brasileiro, às 19 h, vai encontrar a biblioteca fechada, descobrir que a programação caiu pela metade e que há apenas um projecionista a postos. Vai também saber que a Jornada Brasileira do Cinema Silencioso, que ocorre em agosto, foi adiada e deve ser realizada nos próximos meses. Além disso, o QG do Festival Internacional de Curtas de São Paulo, que tradicionalmente ocupa a Cinemateca, este ano será o Museu da Imagem do Som, ainda que o evento dedique atenção especial à Cinemateca e ali tenha mantido diversas atividades.

As mudanças poderiam ser apenas triviais se não fossem sinais da crise administrativa iniciada em janeiro, quando a Cinemateca, por decisão do Ministério da Cultura, teve seu então diretor (Carlos Magalhães) exonerado e o repasse de verbas suspenso, depois que também foi instaurada uma auditoria (levada a cabo pela CGU, a Controladoria-Geral da União) para analisar as contas da Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC). A entidade se viu, então, obrigada a demitir cerca de 43% do corpo de funcionários contratados pela CLT e começar a operar em ritmo reduzido. 

Vale lembrar que a SAC e o MinC trabalharam em conjunto segundo acordo de cooperação firmado em 2008. De lá até dezembro de 2012, foram repassados R$ 105 milhões em verbas públicas para a entidade. “O acordo (pelo qual projetos específicos eram conduzidos por meio da captação que vinha de recursos do MinC para a SAC, que administra e repassa os valores para a Cinemateca) fazia com que o andamento fosse mais ágil do que seria se tudo fosse realizado no modelo tradicional”, explica o presidente do conselho da Cinemateca, Ismail Xavier. 

O processo de retrocesso institucional levantou o temor de que não só as atividades de difusão, tais como monitoria, exibição de filmes, abrigo de festivais e eventos, fossem temporariamente prejudicadas, mas também o ritmo de trabalho de preservação e restauração de seu acervo, com mais de mais de 200 mil rolos de filmes, entre longas, curtas e cinejornais, além de documentos. Sem contar o funcionamento da biblioteca, que atualmente fecha aos sábados. “O que vejo na SAC chamaria de dores do crescimento. A Cinemateca mudou de escala e, consequentemente, os controles SAC-Cinemateca não acompanharam essa mudança de proporções de operações de uma instituição que vivia com recursos reduzidos e, por meio do acordo de parceria, recebeu quantidade expressiva de recursos diante da penúria que são os recursos para cultura no Brasil”, disse Roberto Teixeira da Costa, presidente da SAC. “Até agora, além de imperfeições que têm de ser corrigidas, nenhuma irregularidade foi apontada, nem pela CGU nem pela auditoria que nós contratamos, da PriceWaterHouse”, completou o economista. “Devemos ajustar o modelo administrativo, como em uma grande empresa, e encontrar novos roteiros.”

O Estado visitou a Cinemateca no fim de maio e acompanhou um dia de funcionamento da instituição. Dos quatro monitores que dão apoio a programas como o Cine Educação, restou um. Das duas salas de exibição, uma estava funcionando. Mais que a redução na exibição de filmes (pois há menos funcionários na área técnica para revisar e preparar as obras que são exibidas), a programação também havia caído pela metade. Na área de preservação, outros departamentos foram visitados. Detentora de um dos mais bem equipados laboratórios de restauração da América Latina, a recuperação de filmes também foi desacelerada.

Esse ritmo reduzido se justifica em função do processo de auditoria. Além disso, não foram especificados novos projetos desde o fim do acordo de parceria entre a SAC e o MinC, em 7 de julho. Diante disso, a equipe da Cinemateca continua a trabalhar com os três projetos que já estavam definidos antes do início da crise: o programa de restauro, o plano anual de trabalho da SAC e o edital Marcas da Memória. 

Para que o corpo de profissionais não sofra mais desfalques, é necessário que novas contratações sejam propostas. Segundo Teixeira da Costa, que se reuniu com a ministra da Cultura, Marta Suplicy, há uma semana, não há previsão de contratações. 

Consultado pelo Estado, sobre o encontro com Teixeira, o MinC informou: “A agenda foi para conversar sobre iniciativas deles para responder à auditoria em curso e ouvir sugestões. Nada em caráter decisório. Nada a anunciar”. E acrescentou: “Está sendo verificada com o Ministério do Planejamento a possibilidade de concurso”. 

Quanto à questão da contratação de um novo diretor da entidade, o ministério anunciou que o dia 12 de agosto foi o prazo combinado entre a ministra e a SAC para que sejam feitas sugestões de nomes. Porém, não há data definida de nomeação. “Estamos trabalhando juntos. É momento de buscar soluções para se retomar o ritmo. É um aprendizado. Estamos vivendo pela primeira vez certos problemas que dizem respeito não só à Cinemateca, mas a muitas instituições públicas brasileiras”, conclui Xavier.

 Fotos: Sérgio Castro/Estadão

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