Em busca de Boal

Diretor retoma peça de 1978

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2011 | 00h00

Augusto Boal (1931-2009) estava no exílio quando enviou um envelope pelo correio a Othon Bastos. Além de uma peça inédita, mandava uma carta, com a recomendação de que Paulo José dirigisse a futura montagem.

Foi em 1978 que Murro em Ponta de Faca estreou. Seguindo as indicações do autor, Paulo José encarregou-se da direção. Mas Boal não voltaria ao Brasil a tempo de ver o espetáculo. Os anos passaram. E essa obra, que falava da angústia de ser banido do País, ficou esquecida.

Só agora, 33 anos depois, o público terá a chance de rever Murro em Ponta de Faca. E, novamente, é Paulo José quem tem as rédeas da encenação. Em uma programação paralela do Festival de Curitiba, ele mostrou um ensaio aberto. Feita com um grupo de atores paranaenses, a produção abre temporada dia 15, no Rio.

De suspensórios vermelhos e chapéu Panamá, Paulo recebeu os espectadores. Sentado diante de um teclado, no canto do palco, dedilhou trechos de Passarim, de Tom Jobim. Emendou outros pedaços de canções. Tudo isso um pouco antes de os intérpretes começarem a representar a pequena saga de um grupo de exilados. Gente que vagava de um lugar a outro, sem paradeiro certo. "O brasileiro é cordial, tem esse jeito de apaziguar tudo. Não é por revanchismo, mas essa é uma história que não se pode esquecer", diz Paulo.

Vê-se logo que Murro em Ponta de Faca traz uma face quase desconhecida do criador do Teatro do Oprimido. Mostra-se completamente distinta de criações suas, como Arena Conta Zumbi. Carrega um lastro de pessoalidade que pouca gente conhece. Talvez só Paulo José.

"Convivi com o Boal de 1961 a 1968. Fizemos muita coisa juntos", conta o ator e diretor, enquanto desfia memórias dos anos em que trabalharam no Teatro de Arena. Paulo vivia em Porto Alegre, quando uma montagem de Revolução na América do Sul - peça de Boal - passou por lá e ele se juntou ao elenco. Dali, partiu para São Paulo. E entrou de vez no grupo. "Morava dentro do Arena. Dormia na rouparia do teatro e passava o dia inteiro trabalhando."

Mesmo hoje, ele não descansa. Enquanto os atores estão atuando, observa as cenas de pé, do canto da plateia, quase como se quisesse tomar parte do espetáculo. Nos últimos tempos, porém, está mais difícil subir ao palco. "Por conta da fala, da dicção", explica, discorrendo sem pudor sobre o mal de Parkinson. "Já são 20 anos driblando a doença. E existe um lado bom. A doença o libera do pudor e faz escolher melhor o que se quer fazer."

Em breve, ele estará de volta ao cinema, no novo filme de Selton Mello. E, agora, pensa em vida longa para a peça. "O Boal nunca chegou a ver o texto montado. Fiz como homenagem."

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