EM BUSCA DAS LUZES

Honey LaRochelle, ex-backing vocal de Joss Stone e de Macy Gray, mostra seu trabalho solo

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

21 de março de 2013 | 02h14

Não subestime a cantora de apoio. O espaço no palco, ao flanco da diva, já foi categoria de base para grandes vozes. Sheryl Crow esteve lá, antes do sucesso, em turnê com Michael Jackson e gravinas de Stevie Wonder. Cher o usou de trampolim para a fama nos anos 60, quando cantou a serviço de Phil Spector e seus girl groups. Whitney Houston exibiu os primeiros lampejos de grandeza em I'm Every Woman, de Chaka Khan.

Escolada neste anônimo púlpito de apoio vocal, a talentosa soul girl canadense Honey LaRochelle trama sua transição para debaixo dos holofotes. Sua aprendizagem foi forjada em turnê com Joss Stone, Roberta Flack, os Brand New Heavies e um contrato de gravação com Macy Gray. "Muito do que sei aprendi em turnê pelo mundo com esses artistas", conta Honey, que canta hoje à noite no Na Mata Café para divulgar o disco Clean Lust and Dirty Laundry, de 2011. "Na estrada, vivenciei tudo o que acontece no backstage do show business. Entendi quais são os elementos que fazem o público ir à loucura. Percebi que tipo de approach quer ter. Quais músicas me deixam arrepiada, qual nicho agrega algo", completa.

Honey trabalha uma mistura de neo soul e r&b contemporâneo. Em beats que agregam hip-hop, eletrônico e reggae à mistura, ela canta sobre desejo e paixão com uma voz lapidada e visceral ao mesmo tempo. Os ecos são de Erykah Badu, Lauryn Hill e, nas palavras da própria cantora, Alícia Keys.

Não há nada de novo em sua receita, mas o verniz cru da produção, em contraponto ao refinamento vocal de Honey, nos faz pensar em que seria de sua voz se estivesse nas mãos dos produtores de uma Rihanna ou mesmo uma Macy Gray. Em Hold on To Your Life, faixa em ritmo de reggae, sua interpretação dos vocais principais é tão sólida quanto sua performance de backing vocals, em que exerce com destreza sua profissão de apoio em benefício próprio.

"Eu tento fazer soul music que seja leve e sexy. Fiz o disco para as pessoas ouvirem ao limpar a casa, lavar as roupas, dar uns amassos no carro", conta. O disco, disponível para download por qualquer preço, no site honeylarochelle.bandcamp.com, traz também belas performances românticas, como a de It's a Go, e outras luxuriosas, como a de Sugar Daddy. Embora a produção não acompanhe seu talento, a sensação é de se ouvir uma promessa em busca de sua própria "voz".

"Quando reflito sobre o tempo que passei em turnê com estas grandes cantoras, a minha trajetória sempre foi em direção ao meu próprio trabalho. Demorei sete anos para fazer este disco", conta Honey.

O processo foi demorado, e teve seu início na infância da cantora. Sua mãe, vocalista de apoio de Roberta Flack, teve de levar a filha para o serviço. Incentivou os primeiros versos de Honey aos 5 anos de idade. A levou para gravá-los no estúdio aos 8.

"Gravei mais de 200 canções para este disco", revela a cantora. "Tive que escolher as que melhor representam esta fase da minha vida. Meu computador tem canções para mais cinco ou seis álbuns." Para lançar Clean Lust and Dirty Laundry, Honey abriu a própria gravadora, a Butterfly Soul Records, empreendimento que toca com um produtor britânico, um jornalista nova-iorquino, enquanto colabora com músicos no Brasil e pelo mundo a fora.

Ao mesmo tempo, trabalha como produtora vocal para Macy Gray e Jennifer Hudson, entre outras. Um trabalho de especialista, em que auxilia cantoras a darem o melhor de si em cada take. "Tenho vocação para isso também. É a minha parte favorita do processo, no estúdio. Você entra na cabine com uma cantora. Às vezes elas estão sensíveis, então você tem de ser cuidadoso. Às vezes elas estão prontas para a batalha, prontas para receberem qualquer tipo de crítica (risos)." A sabedoria parece estar imprimida em seus próprios takes.

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