Frank Ockenfels/AP
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Em busca da vida simples

Vincent Kartheiser critica, em São Paulo, homens como Pete, que estimulam o consumo

Etienne Jacintho, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2011 | 00h00

Vincent Kartheiser, o Pete Campbell da série Mad Men - cuja 4.ª temporada deve estrear ainda neste trimestre na HBO -, é mais alto e mais charmoso do que o personagem aparenta. Ele também, diferentemente de Pete, tem um senso de humor apurado e uma aversão ao mundo que a publicidade criou. Ao Estado, em entrevista feita no hotel Unique, em São Paulo, o ator fala sobre a indústria do consumo e das celebridades que tanto distancia as pessoas do que é realmente relevante na vida.

 

 

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Vamos simpatizar com Pete um pouco mais na 4ª temporada?

Depende de você. Às vezes, Pete faz a coisa certa e as pessoas chiam: "Poxa, gosto quando ele pisa na bola!" É engraçado porque Pete faz várias coisas que Don Draper (personagem de Jon Hamm) também faz. Ele mente, trai a mulher, é ambicioso, mas não é tão charmoso e bonito como Don. Acho que isso reflete nossa sociedade que é capaz de perdoar um homem alto, grande e charmoso. Já um baixinho, meio torto, é crucificado (risos). As pessoas fazem isso na vida real. Quando conhecemos uma pessoa, julgamos. Há tipos de homens em quem a gente confia, só pela maneira como suas feições se encaixam no rosto. É cultural. Acho que, no caso de Pete, as pessoas não vão com a porcaria da cara dele (risos). Esse é um problema que tenho na vida real... Mas não é tão engraçado na vida real!

Como você se sente quando os fãs dizem que odeiam Pete?

Isso é um problema deles, não meu. Se alguém me odeia, não é problema meu. Não tento mudar as emoções das pessoas. Só tento lidar com quem eu odeio.

Como você vê a evolução de seu personagem ao longo desses quatro anos de Mad Men?

A mulher dele moldou quem ele é, já que a família nunca lhe deu apoio. Seu pai e sua mãe o trataram como merda. E aí vem essa mulher que acredita que ele pode ser mais do que é. Agora, ele está aprendendo a ser um executivo, um profissional melhor. Não vamos perder o velho Pete, mas ele está crescendo. Você não gostou disso?

Não. Prefiro o Pete egoísta e ambicioso...

Ah, mas ele ainda é egoísta e ambicioso. Ele só está aprendendo a lidar com o mundo corporativo. Não acho que as pessoas mudem. Elas só trocam a roupa, o exterior. Alguns até conseguem mudar o interior, mas isso demanda muito tempo, muito mais do que os cinco anos que já decorreram na série.

O que você aprendeu sobre a publicidade após Mad Men?

Tão pouco (risos)... Li livros de propaganda no primeiro ano da série, mas só o básico. Para interpretar um padeiro em um filme, você não precisa saber assar um pão, infelizmente. Você só precisa saber como se comportar diante do forno. Isso é o que fazemos. Fingimos entender tudo de propaganda.

Você acha que a publicidade que nasceu lá nos anos 1950/60 criaram o que a gente chama de "american way of life"?

Acho sim. Não sei muito sobre isso, mas sei que vivemos numa sociedade de consumismo e, cada vez mais no mundo, você é motivado pelo que possui ou quer possuir. As pessoas se matam para ter o que elas acham que lhes trará status: essas coisas que são vendidas para nós por esses homens engravatados. Os anos 50 chegaram com os maravilhosos aparelhos domésticos e a mulher tinha tempo de sobra. Ela via isso e aquilo e, em seu tempo livre, saía para fazer compras. Com o sucesso dos EUA no pós-guerra e o monopólio das indústrias americanas em diferentes áreas, a classe média - que continua em ascensão - deu uma enriquecida e criou essa coisa do consumo. E os publicitários descobriram que qualquer coisa é vendável. Você pode ver algo que ninguém quer, mas seus vizinhos compram e você quer ter também. Esses caras têm capitalizado em cima disso. Eles criaram essa indústria do consumismo de definir as pessoas pelo que elas têm, pelas marcas e grifes... Não há uma sociedade altruísta.

Você tenta se livrar desse consumismo?

Acho que é da nossa natureza, hoje, querer coisas. Quero tudo que está aqui neste quarto. Esta parede inclinada! Nossa, quem dera eu tivesse uma dessas em casa. Gasto dinheiro em coisas materiais, mas quando estou com minha família vejo que há coisas que você não encontra num carro novo. Acho que todos nós, no fundo, somos minimalistas. Todos queremos queimar nossas casas, vender nossos móveis e começar do simples. Quando você possui algo, aquilo o domina. Tenho uma casa e tenho de cuidar dela, o que me custa tempo e dinheiro. Então, procuro uma forma de simplificar minha vida.

Como?

Não tenho carro. Também não tenho muitos móveis em casa, mas tenho ternos... Não faço isso por uma questão moral nem condeno quem possui muitas coisas. Faço isso por mim, porque me sinto melhor quando tenho poucas coisas. Aí não junta pó. Minha vida fica mais fácil, organizada. É mais bonito assim, pois posso me focar no que é realmente importante: as pessoas.

Não é difícil viver sem carro em Los Angeles?

Claro que é difícil! Mas é difícil ser ator, jornalista, trabalhar em uma mina... Muitas coisas são difíceis, mas isso não significa que não valham a pena. Sei que é um clichê, mas as coisas que valem a pena são difíceis de conseguir. Não tendo carro, não me estresso com o trânsito. Subo no ônibus ouvindo minha música, observando meu entorno. Vejo o mundo, sinto os odores, esbarro nas pessoas. Para mim, isso é positivo. Carro dá muito gasto com impostos, seguros, gasolina, estacionamentos... Com esse dinheiro, posso fazer outras coisas.

Não é impossível manter esse estilo de vida em uma cidade onde todo mundo quer ser ou ver celebridades?

Isso de celebridade é uma bobagem. Nada é como parece ser... As pessoas vendem uma ilusão: "Compre isso e se sentirá completo." Não, você não se sentirá completo. Essa sede por celebridades que existe nos Estados Unidos é uma epidemia. É assustador. Não me considero uma celebridade. Os tapetes vermelhos, por exemplo, são um saco. Ter um fotógrafo na sua cara o tempo todo (fala isso olhando para o fotógrafo que registrava a entrevista) também (risos). Mas você se acostuma! Quando eu era um ator desconhecido, era muito mais fácil encontrar uma garota em quem eu confiasse. Quando você ganha esse carimbo, tudo é difícil. As pessoas o tratam diferente. As coisas mudam. Não posso ir à mercearia com minhas calças de moletom e cutucar o nariz... As pessoas estão muito desorientadas na vida. Se elas fossem viver uma semana como celebridades, desejariam suas vidas de volta.

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