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Em busca da identidade

Daniel Burman vem a São Paulo para mostrar seu documentário Os 36 Justos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2011 | 00h00

Daniel Burman desembarca amanhã em São Paulo para acompanhar a exibição de seu documentário Os 36 Justos no Festival de Cinema Judaico, no sábado e domingo. Ele é um dos mais destacados diretores da nova geração argentina e é bem conhecido no Brasil, graças ao sucesso de Abraço Partido, As Leis de Família e Dois Irmãos. No site do filme e no YouTube, você encontra a entrevista que Burman deu a um canal de TV da Argentina. Ele explica a origem do projeto.

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Tudo começou quando descobriu que seu nome em hebraico era David ben Leah. Integrando um grupo de judeus, Burman partiu numa viagem ao antigo Leste europeu, em busca dos túmulos de homens sagrados da sua religião. Na verdade, buscava as próprias origens, ou a própria identidade. Como diz, a viagem não mudou sua relação com Deus, mas mudou a relação com os outros e fortaleceu o desejo de realizar Os 36 Justos. Com a câmera na mão e o olhar voltado para dentro, Burman visa a iluminar o mistério dos justos, homens escolhidos por Deus para evitar a destruição do mundo.

A consciência de ser judeu tem estado presente no cinema de Burman. Ele, inclusive, realizou um dos episódios de 18 J, sobre o atentado de julho de 1994 que matou quase 100 pessoas numa associação judaica de Buenos Aires. Já havia ali uma tomada de posição contra a barbárie, mas Burman nunca foi tão fundo nessa discussão como ao seguir o grupo de ortodoxos que visita o túmulo dos tzadikim (justos) na Rússia, na Ucrânia e na Polônia. O momento mais significativo dessa busca está na descoberta de Baal Shem Tob, líder espiritual dos chassidim, no século 18. Burman se interroga sobre esses grandes místicos e sua herança para os homens modernos. O que ele busca neles talvez seja uma versão mais ampla do abraço partido, uma forma de sedimentar seu humanismo e de ser solidário num mundo em crise.

O espectador, que poderá seguir a dupla viagem de Daniel Burman - a geográfica e a interior, rumo a si mesmo -, também poderá assistir a O Violinista no Telhado no fim de semana. O musical de Norman Jewison com Topol está completando 40 anos. A versão brasileira está sendo apresentada no Rio e muito dificilmente virá a São Paulo, porque há falta de teatros com fosso para abrigar orquestras. O filme foi feito numa época em que o cineasta flertava com o gênero - na sequência, fez Jesus Cristo Superstar, que envelheceu mais (e mal).

Antes de ser musical, a história de Tevye surgiu em contos do escritor Sholom Aleichem. Passa-se na fictícia Anatevka, sob o czarismo. As comunidades judaica e cristã vivem separadas. Tevye é leiteiro, tem mulher e filhas. Umas delas, qual Julieta, vive romance proibido - e o seu Romeu é cristão. Em 171, Jewison foi acusado por alguns críticos de dar força à intolerância. Poucos compreenderam, como Ruy Nogueira, na revista francesa Écran - para ele, o filme é uma obra-prima -, que o cineasta, na verdade, prossegue com a discussão sobre o racismo de No Calor da Noite.

Tevye sente-se atado a tradições milenares de sua cultura. E sofre justamente por temer dar um passo no sentido da sua transformação. Nesse sentido, a história do Violinista tem a ver com a dos Justos, e na mesma Ucrânia. Na cena emblemática do musical, Tevye vê a filha caçula se casar segundo a tradição. Ele canta, perguntando-se se aquela mulher é a menina cujos primeiros passos acompanhou. Você não precisa ser pai para sentir a emoção da cena. Os versos cantam Sunrise/Sunset. Cruzam-se ali, nas trajetórias de pai e filha, o alvorecer e o crepúsculo da raça humana.

De volta a Burman e a seus Justos, o mistério dos tzadikim é que eles devem permanecer anônimos entre os homens. No Festival de Cinema Judaico de Nova York, o cineasta falou bastante sobre o que aprendeu em sua peregrinação. Numa era de superexposição e culto da celebridade, é significativo que Burman tenha recorrido ao documentário, relatando uma jornada pessoal, para falar de identidade e convicções. O mundo está cada vez mais superficial e dividido, e é contra isso que seu cinema se insurge. É um debate que percorre outros - muitos - filmes do 15.º Festival de Cinema Judaico de São Paulo.

FESTIVAL DE CINEMA JUDAICO

Programação completa: www.fcjsp.com.br

Até 7/8.

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