Em busca da essência da canção

Vitor Ramil revisa minuciosamente 32 de suas criações em CD primoroso

LAURO LISBOA GARCIA, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2013 | 02h17

Como quem cultiva joias raras, Vitor Ramil tem o hábito de lapidar suas pedras de tempos em tempos. Dessa vez, com o lançamento do songbook e do álbum duplo Foi no Mês Que Vem, gravado em Buenos Aires, Porto Alegre e Rio de Janeiro, ele foi mais fundo na essência. Escolheu a dedo 32 das mais importantes e elaboradas de suas canções e as revisou minuciosamente no papel e da maneira mais despojada no áudio, baseadas na voz e no violão. Em formato acústico, o resultado do CD é um primor - e pode ser apreciado ao vivo hoje e amanhã em shows no Auditório Ibirapuera, onde ele toca e canta, com o percussionista carioca Marcos Suzano e o violonista argentino Carlos Moscardini como convidados.

Além dos dois - que tocam em pérolas como Ramilonga, Deixando o Pago, e Sapatos em Copacabana -, entre outros, o álbum tem participações significativas de Ney Matogrosso (Que Horas Não São), Milton Nascimento (Não é Céu), seus irmãos Kleiton e Kledir (Noite de São João), Jorge Drexler (Viajei), Pedro Aznar (À Beça), Fito Paez (Espaço), Kátia B (Joquin, versão de Joey, de Bob Dylan e Jacques Levy), Santiago Vasquez (em Satolep e outras três) e a Orquestra de Câmara Theatro São Pedro (em cinco faixas, incluindo Livro Aberto). Filha do compositor gaúcho, Isabel Ramil participa de Noa Noa, e fez os cenários e, com Biel Gomes, os vídeos do show. Seu filho Ian canta em Passageiro.

O songbook e o CD estão à venda no site www.vitorramil.com.br. Parte da verba para a produção de ambos foi obtida via financiamento coletivo pela internet (crowdfunding), experiência inédita em sua carreira. Antes disso ele já tinha concluído outro livro, um romance "que era infantojuvenil, mas depois se tornou adulto" e está negociando a publicação com uma editora em São Paulo.

"Ainda não fechei as contas, mas botei bem mais dinheiro do que consegui com os fãs", diz Ramil. "Até porque acabei mixando e masterizando duas vezes e mandei para os Estados Unidos, porque estava difícil ficar satisfeito com o resultado. É um disco todo acústico e tinha uma sonoridade de voz que eu não estava conseguindo encontrar. Agora, a experiência foi incrível, gratificante."

Ramil ainda revisou minuciosamente, nota por nota, todas as partituras do songbook. "Foi um trabalho muito intenso, que começou dois anos atrás." Além de cifras e outros detalhes, o livro também tem manuscritos de letras, fotos de várias fases da vida e textos inéditos analíticos e biográficos escritos por Luís Augusto Fischer, Juarez Fonseca e Celso Loureiro Chaves.

No CD, há canções que há muito pediam uma reinterpretação, caso das belíssimas Loucos de Cara e Joquin (Joey), cujas gravações originais, da década de 1980, ficaram datadas. "Anteriormente a esse disco, já tinha vontade de regravar Loucos de Cara só com voz e violão, que é como sempre canto nos shows", diz. "Este disco não tem muito o sentido de regravações, é como se eu estivesse indo em direção à essencialidade dessas canções. Muitas delas foram se ajustando através dos anos, meu processo se dá dessa maneira. Não é à toa que às vezes eu regravo algumas músicas."

Até mesmo para a canção mais conhecida dele, Estrela Estrela (lançada em seu primeiro LP, quando ele tinha 18 anos, e gravada também por Gal Costa, Milton Nascimento e Maria Rita, entre outros), só agora, aos 52 anos, ele diz que encontrou o tom mais adequado de cantá-la e a sonoridade mais justa dos violões. Lapidar.

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