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Em busca da convivência perdida

São Paulo sedia o Diálogo das Civilizações, encontro internacional que tem início amanhã na Biblioteca Mário de Andrade

LAURA GREENHALGH, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2013 | 02h12

Houve tempo em que o grego, o latim, o árabe e o hebraico eram línguas que se permeavam. E, nisso, conseguiam traduzir uma cultura na outra. Aconteceu no tempo de Alexandre, o Grande, no século IV a.C. Depois com Afonso X, o Sábio, no século XII, cuja corte foi ponto de encontro de poetas galego-portugueses e provençais. São dois momentos na História de grande irradiação cultural. Poderia acontecer agora? Tensões pelo Oriente não deixam margem para otimismo, no entanto, poderia acontecer. Não só lá, mas em outras partes do planeta. É nessa perspectiva que acontece amanhã e terça-feira, pela primeira vez em São Paulo, o Diálogo das Civilizações, iniciativa internacional proposta pela Universidade de Notre Dame- Louaizé, em Beirute, Líbano.

Serão dois dias de palestras e debates na cidade, reunindo filósofos, artistas, escritores e diplomatas de nacionalidades diversas, em programação aberta ao público. No primeiro dia, o Diálogo acontece no auditório da Biblioteca Mário de Andrade, com abertura solene feita pelo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, e pelo secretário municipal de Cultura, Juca Ferreira. Os trabalhos se estenderão pelo dia inteiro na biblioteca. Já no segundo dia, o Diálogo se desloca para a Tenda Cultural Ortega y Gasset, na Cidade Universitária da USP, apenas na parte da manhã.

"Esta iniciativa de reflexão e troca de experiências culturais nasceu no Líbano, mas, em sua primeira versão, definiu-se que aconteceria em São Paulo", explica a escultora paulista Denise Milan, representante do Diálogo no Brasil. "E por quê? Porque São Paulo, como definiu o poeta Haroldo de Campos, é urbe multilíngue, abrigo de muitas civilizações. Aqui se convive." Ao organizar o Diálogo, Denise contou com a colaboração de Olgária Matos, professora-titular de Filosofia da USP.

As intervenções dos dois dias buscam referência no espírito das grandes escolas de tradução - a de Alexandria, sob Alexandre Magno, e a de Toledo, sob Afonso X - quando diferentes línguas conviviam num movimento fraternal translatício. E assim criaram para o Ocidente formas de convivialidade, confiança e hospitalidade.

O rebatimento desses momentos do passado no presente, hoje fragmentado por disputas religiosas, étnicas, territoriais e econômicas, é o objetivo final do Diálogo, que se repetirá em outras cidades pelo mundo. "Não se trata de fazer um evento pacifista. O que se busca é entender os elementos que possibilitam povos e culturas conviverem em clima de confiança e respeito mútuos", explica Denise, que discorrerá sobre a linguagem das pedras como um chão comum da humanidade. As pedras também são o elemento central do seu trabalho como artista plástica.

A programação exibe temas de rara beleza. Único palestrante a se apresentar à distância (por vídeo), o jornalista e escritor Gilles Lapouge, colunista do Estado, estenderá pontes entre o Oriente próximo e o distante. "Busco linhas de diálogo entre civilizações tidas como incompatíveis, chegando a combinar vivências do reino dos homens e do reino animal ou vegetal". Olgária Mattos, ao reposicionar o conceito de "cidadão do mundo", fala de um Oriente Médio que simboliza o encontro de culturas e temporalidades. Daí pensa em escala global: "Somos páginas de um mesmo livro, espalhadas pelo mundo".

Convidados internacionais se revezam na mesa do Diálogo. O historiador Youssef Rahme, presidente do Instituto do Cedro, no Líbano, localiza este país como epicentro de múltiplos contatos do Oriente com Ásia, África e Europa. E sobre isso falará. "O Líbano ainda é um formidável laboratório humano", diz o professor, lembrando que mais de 80 religiões convivem em solo libanês. Anis Nacrour, diplomata do Serviço de Ação Externa Europeia, com base na Síria, falará sobre as crises que hoje sacodem os Estados árabes, com reverberações mundiais. "Ao diplomata que escuta com tolerância e sem engajamento, diálogo estimula, mas pode frustrar", reconhece.

O filósofo americano Edward Alam mostra como a Espanha dos séculos XII e XIII aproximou civilizações e no que isso foi fundamental para o desenvolvimento da filosofia. No suceder das falas, o pensamento de Maimônides, a escrita literária do escritor israelense Amos Oz e do libanês Rachid Daif, e a poesia judaica de Todros Abulafia, que frutificou entre cristãos na Espanha do século XIII.

Momento aguardado será a apresentação de Lawrence Sullivan, doutor em História das Religiões pela Universidade de Chicago. Tratará da árvore sagrada, axis mundi que tem a ver com criação primordial, ao mesmo tempo em que testemunha de processos de destruição. Do cedro, árvore-símbolo do Líbano, alcançará as árvores sagradas dos povos indígenas no Brasil. Após cada intervenção, a mesa se abre para o diálogo com a plateia.

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