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Em 'Arte', autora francesa Yasmina Reza observa laços masculinos de amizade

O espetáculo estrelado por Vladimir Brichta estreia domingo no Teatro Renaissance em São Paulo

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES - O Estado de S.Paulo,

17 de agosto de 2012 | 03h09

Algo pulsa por detrás das boas maneiras. Instintos violentos que eclodem onde menos se espera. Desmontam a compostura de gente aparentemente equilibrada, educada. Rompem o que a dramaturga Yasmina Reza chama de "verniz social".

Para essa autora francesa, aclamada internacionalmente e uma das mais encenadas hoje no mundo, seres humanos são criaturas que agem por impulso. Não importa quantas regras e convenções tenham inventado para viver pacificamente.

É sobre esse princípio que Yasmina organiza suas obras. Em Arte, espetáculo que estreia domingo no Teatro Renaissance, os laços de amizade que unem três homem se esgarçam por um motivo aparentemente tolo: uma discussão sobre arte contemporânea. Eis o estopim para que o tal "verniz" comece a ruir.

"As pessoas se comportam bem frente à sociedade, tomam atitudes socialmente aceitáveis, mas isso tudo é frágil", aponta o encenador Emílio de Mello. "De uma hora para outra, você toca num ponto que desestabiliza tudo e passa a infringir regras básicas: o respeito ao outro, a noção de que é preciso dar espaço para que as pessoas tenham uma opinião diferente da sua."

A convicção é de um diretor que tem se tornado um especialista nas obras da escritora: é a terceira peça dela que leva à cena. Antes vieram O Homem Inesperado (2006) e Deus da Carnificina (2010). "São textos superbem construídos, com conflitos muito desenvolvidos e que são também muito bons para atores", diz Mello.

A generosidade da dramaturga com os intérpretes é uma marca distintiva do seu teatro, traço que os críticos costumeiramente evocam ao falar da sua ficção. Foi precisamente esse o ponto que atraiu Vladimir Brichta.

Depois de assistir a uma versão de Arte em Buenos Aires, que tinha Ricardo Darín como um dos protagonistas, o ator resolveu encená-la também. Tornou-se produtor e trouxe dois amigos para dividir a tarefa de estar no palco: Marcelo Flores e Claudio Gabriel. "Esse fato foi muito importante na composição", acredita o diretor. "O que norteou o trabalho foi o afeto que existia entre eles."

Na televisão, Brichta tem abraçado papéis cômicos. Aqui, a tônica não é diferente. Ainda que se trate de um humor de outra natureza, conforme explica o encenador. "A obra caminha sempre em duas vertentes. É um teatro conceitual, há sempre uma ideia sendo discutida. Mas tem também uma estrutura de comédia de vaudeville. Ainda que seus temas sejam quase trágicos."

A tragédia que Yasmina convoca tem contornos contemporâneos. Em Deus da Carnificina - que Roman Polanski recentemente transformou também em filme -, duas famílias tentam resolver de maneira "civilizada" a briga de seus dois filhos. O propósito, porém, não vai muito adiante. Arte lida com um mote que soa semelhante.

Sérgio (Claudio Gabriel), Marcos (Marcelo Flores) e Ivan (Vladimir Brichta) são companheiros de longa data que veem sua sólida relação estremecer de forma tão violenta quanto banal. Sérgio compra uma tela completamente branca. Paga uma pequena fortuna pela obra monocromática de um artista festejado. E abre uma ferida imprevista quando pede a opinião dos amigos sobre sua última aquisição.

Arte é um texto sobre um universo eminentemente masculino. Mas escrito por uma mulher. Para além de revolver o já desgastado debate sobre gêneros, a observação serve para iluminar algumas filigranas dessa criação. "Estão ali três homens, mas ela tempera tudo isso com um afeto muito grande que talvez não existisse em uma discussão puramente masculina", considera o encenador. "Toda a discussão é muito racional, muito apolínea, mas entra um toque muito dionisíaco que é dado todo pelo afeto entre eles. Algo que atrapalha e embaralha tudo, que talvez seja o lado da mulher que entra e subverte essa situação."

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