Em algum lugar do passado

Em algum lugar do passado

Em novos livros, Lívia Garcia-Roza e Marina Colasanti escrevem sobre loucura e guerra

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2010 | 00h00

O passado, escreveu Machado de Assis em uma carta a Joaquim Nabuco, é ainda a melhor parte do presente. Vividos de fato ou criados pela ficção, momentos antigos sempre seduzem escritores como comprovam as novas obras de duas damas da literatura nacional - em Minha Guerra Alheia, Marina Colasanti relembra seus dez primeiros anos de vida, que se passaram em meio à 2.ª Guerra Mundial; já em O Sonho de Matilde, Lívia Garcia-Roza recupera o Rio de Janeiro dos anos 1960 para compor o retrato de uma família ameaçada por um mal então pouco conhecido. Os dois livros chegam esta semana, editados pela Record.

O conforto do presente, que permite uma avaliação moderada e até racional de lembranças não tão remotas, tornou-se o fio condutor das duas autoras. Marina, por exemplo, estava decidida a não escrever apenas um livro de memórias, mas principalmente um documento. E Lívia, psicanalista de formação (assim como o marido, o também escritor Luis Alfredo), interessou-se por uma época em que distúrbios mentais ainda eram uma incógnita para a medicina.

"Meus primeiros dez anos começaram e terminaram envolvidos por climas de guerra", conta Marina, que nasceu em Asmara, na Etiópia (então Eritreia). Fascista convicto, seu pai ajudava o regime estimulando investimentos italianos na colônia africana. Foi seguindo tal ideal que a família viveu ainda em Trípoli, na Líbia, antes de voltar para a Itália, quando eclodiu a 2.ª Guerra, em 1939. A vinda para o Brasil só aconteceu em 1948, quando a Europa destroçada buscava se reerguer.

"Eu tentei evitar a simples reprodução de um clima de guerra, pois, mesmo durante um conflito tão terrível como aquele, o ser humano precisava sobreviver", conta a autora, justificando a alternância que marca a narrativa, ora uma deliciosa crônica do cotidiano, ora uma detalhada narrativa de como era viver sob bombardeios.

Equilíbrio. Em nenhum momento a balança pende para algum lado. Marina é precisa ao relatar momentos dramáticos: "As bombas caem devagar. Não sei como é possível, com aquele peso. Mas caem lentas ou eu as vi caindo lentas, bem lentas. E, sobre a minha cabeça, vindo na minha direção. Não era a mim que elas queriam, não era aquela família deitada no mato o alvo de tanta munição." Mas não se esquece da vida mundana, dos aspectos que sobrevivem imunes ao conflito: "A guerra bafejava no nosso cangote. A vida, porém, teimava em continuar. Entre cuidar das crianças e cozinha almoço e jantar (...), minha mãe, sem nenhum gosto pela culinária, ia ao cinema." Um amálgama bem-feito, que equilibra a aridez de Roma, Cidade Aberta, filme de Roberto Rossellini, com a mágica de A Vida É Bela, de Roberto Benigni.

Marina não se esqueceu nem das privações e das alternativas para compensá-las. Afinal, se não havia café, usava-se chicória. E, uma vez que as escolas não funcionavam regularmente, ensinava-se em casa. "Como vivíamos muito solitários, eu e meu irmão Arduino líamos bastante, especialmente clássicos como Ilíada e Odisseia, que incentivam nossas brincadeiras."

É o olhar infantil que justifica a recriação de momentos de intenso perigo, mas sob o ponto de vista da imaginação. Marina lembra que, ao ouvir o ronco de um avião, as crianças sabiam que deviam se refugiar debaixo da escada, o lugar mais sólido da casa. De tanto repetir o gesto, ela e o irmão estabeleceram relação com um avião em especial, ao qual chamavam de Pippo. "Gostávamos dele porque fazia um barulho diferente e porque se arriscava", escreve. "Pippo voava baixo; senão como ver, no escuro, aquilo que não queria ser visto? E voando baixo muitas vezes esbarrava nos galhos das árvores. Ou fazia barulhos como se esbarrasse."

Os primeiros esboços de Minha Guerra Alheia foram escritos há dez anos, quando Marina e o marido, o poeta e crítico Affonso Romano de Sant"Anna, estavam em Como, na Itália, por conta de um compromisso literário. Os jornais noticiavam com alarde os sangrentos conflitos na província sérvia de Kosovo, assunto que estimulou sua memória e o tempo vivido durante a guerra. "Escrevi cerca de 20 páginas, que ficaram guardadas até que o assunto voltasse a me interessar", conta a escritora que, durante um ano, fez pesquisas históricas para não errar datas e locais. "Conversei também com meu irmão, que é mais velho, mas não quis detalhes, pois essa é a minha versão daquele momento."

A precisão também motivou o trabalho de Lívia Garcia-Roza. Em O Sonho de Matilde, seu nono romance, ela utiliza a ficção para tratar da loucura. Trata-se da história de uma típica família mineira da década de 1960. Heitor Moreira, funcionário da Caixa Econômica Federal, é casado com uma dona de casa, Nancy, e tem três filhos: Cristina, Matilde e o pequeno Mateus. Honrar a linhagem é o lema imposto pelo pai, o que significa "andar com a cabeça erguida, fronte altaneira e o pensamento limpo".

Cristina, a mais velha, é a princesa do clã - linda, formosa - enquanto Matilde, que vê a irmã como modelo, narra a história. O sonho das duas (conhecer o Rio de Janeiro) transforma-se em pesadelo quando Cristina exibe os primeiros sinais de um distúrbio mental: ela se torna ora arredia, agressiva, ora conversadeira, sem controle.

Tema. "A loucura, assim como a morte e o sexo, é um tema por excelência do homem, que nos toca e nos impulsiona a agir de diferentes formas", explica Lívia que, depois de trabalhar durante muitos anos em contato com pacientes em clínicas, além de ouvir histórias semelhantes narradas por amigos, decidiu usá-la como tema de um romance.

A escolha, no entanto, foi tardia. "Tentei evitar esse assunto nos meus primeiros livros, pois temia misturar as áreas e contaminar o texto", conta. "Como já faz 13 anos que cuido apenas da literatura, agora me senti confortável para me reaproximar de um tema tão delicado."

Assim, escolheu uma família típica, estruturada, organizada, como ponto de partida. É nesse meio aparentemente estabilizado que se instala o problema. "Na verdade, desde o início, a família não percebe que o comportamento silencioso dela é atípico e já denuncia a doença", conta Lívia que, durante a escrita, releu o clássico História da Loucura, do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), entre outras obras.

O motivo de localizar a trama de O Sonho de Matilde nos anos 1960 foi justamente porque na época a loucura ainda era tratada em asilos e hospícios que mais lembram penitenciárias. "Foi o momento do grande boom da psicanálise, que ainda pouco conhecia desse distúrbio, daí o desespero da família Moreira em não perceber um tratamento eficiente para a filha."

Apesar do foco estar na decadência mental de Cristina, a prosa fina e cristalina de Lívia é bem humorada e acompanha a transformação sofrida por Matilde, obrigada a sustentar moralmente a família, depois do fracasso dos pais em resolver a situação. "Ela precisa racionalizar e amadurecer rapidamente", comenta. "As dificuldades, ao menos, a deixam equipada para buscar uma vida mais tranquila no futuro."

TRECHOS

Extraído de O Sonho de Matilde

"Durante o percurso até a clínica mal nos aguentávamos; a mãe, caída para trás, com...

...a boca aberta, largada dentro do carro, nem se incomodara com a saia, que ficara levantada acima dos joelhos ao entrar no táxi. Com cuidado, puxei-a para baixo, e ela nem notou. O pai tapava o rosto com a mão, gesto que fazia quando dormia fora da cama, e a cabeça recostara-se contra o vidro da janela. O motorista caía com o carro em quase todos os buracos, fazendo a cabeça do pai trepidar contra o vidro; nesses momentos, ele acordava e dizia que o Rio de Janeiro era uma metrópole cheia de altos e baixos."

Extraído de Minha Guerra Alheia

"Nada aquecia os quartos, nada aquecia o banheiro. Um sistema simples ligado ao...

...fogão da cozinha aquecia a água do banho. Mas as camas tinham que ser esquentadas passando uma espécie de frigideira tampada cheia de brasas, e garrafas de água quente ajudavam a manter a temperatura entre os lençóis. Ainda assim, nos encolhíamos em posição fetal lutando contra o frio. Os cobertores pareciam ter perdido seu efeito.

Meu pai saiu à caça de qualquer flanela, qualquer tecido quente com que se pudessem confeccionar pijamas. Mas, depois de muito procurar, a única coisa que conseguiu (...) foi um retalho abundante de seda."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.