Em 'A Espuma dos Dias', a exuberância surrealista do amor

Livro é um gracioso gesto do francês Boris Vian, autor que não cabia em si mesmo

Vinicius Jatobá - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2013 | 19h27

O legado do francês Boris Vian é a euforia: foi ator, repórter e crítico de arte e de música. Foi ele mesmo músico e compositor, traduziu fartamente e fez arrojados projetos de arquitetura e cenários frondosos para suas peças teatrais. Escreveu incessantemente em verso e em prosa, e foram romances, contos, exuberantes policiais, relatos de fantasia, ficção científica e histórias regadas de energia surrealista. Vian faleceu aos 39 anos de ataque cardíaco durante a exibição de um filme baseado em sua obra, e alguém tão enérgico não poderia ter morte mais apropriada: Vian não cabia em si mesmo.

Ficou a obra, e seus livros falaram à geração do maio de 68 e à de inconformistas das décadas de 1970-80. Possivelmente, estão na cabeceira dos hipsters contemporâneos. Pela força de engajamento, a obra de Vian está além da avaliação crítica de boa ou má qualidade – o prolixo escritor, com sua energia e paixão, é mais uma atitude, uma atmosfera. Sua literatura é um gesto antigo, enérgico e ancestral, que se desenha e se desenha novamente, positiva, elegante, para desenhar-se novamente com novos sentidos, respondendo a novas necessidades.

Espuma dos Dias é seu gesto mais gracioso, afável e doce. No coração do livro está o bon vivant Colin: sua vida é um arrastão sem fim de festas, reuniões sociais, leituras e passeios. Quando seu melhor amigo se apaixona profundamente, Colin percebe naquele amor entre Chick e Alise o vazio emocional de sua vida. Então, prepara-se ele mesmo para o amor, e o amor, como milagre, acontece. Colin conhece Chloé. Ela é feita sob medida para sua necessidade. Nele, Chloé encontra também o amor que tanto buscava. Apaixonam-se e se casam. Há uma excesso de tudo no livro: cor, movimento, cheiros, decoração. Os carros têm vidros amarelos, instrumentos musicais servem bebida, enguias vivem nos encanamentos das casas, e elefantes são usados como transporte público. Mas logo acaba o idílio.

Chloé está doente. Há algo de misterioso e o casal busca uma cura, uma forma de preservar esse mundo colorido em que vive. A doença: há um nenúfar crescendo em de seus pulmões. A única forma de curá-la é cercá-la de flores. O amor da vida de Colin passa assim seus dias, estendida na cama rodeada de camélias, jasmins, rosas, orquídeas, cravos e hortênsias. O arco do romance é de distanciamento e de decepção: a imagem de Chloé, na cama, cercada de tantos aromas e cores vai perdendo sua poesia quando Colin não consegue mais disfarçar sua dor.

O amor antes invencível se arrefece. A exuberância surrealista do romance torna-se uma extravagância nauseante, uma vez que as personagens não mais acreditam na magia do mundo. O movimento contagiante de alegria do início vai se tornando distante e alheio à melancolia agora geral na vida de Colin. E o romance, que tem algumas das descrições mais belas sobre o amor e a alegria, acaba por conter também algumas das passagens mais devastadoras sobre seu fim e aniquilamento. Poucos livros foram escritos de coração para coração. A Espuma dos Dias é um deles.

A ESPUMA DOS DIAS

Autor: Boris Vian

Tradução: Paulo Werneck

Editora: Cosac Naify (256 págs., R$ 49,90)

VINICIUS JATOBÁ LITERÁRIO

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