Em A Coleção, a arte de alinhavar meias-verdades

Crítica: Jefferson Del Rios

O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2012 | 03h09

Se não fosse a Inquisição, Portugal teria um dramaturgo chamado Haroldo Pinto. Não custa imaginar. Os ancestrais de Harold Pinter (1930-2008), por parte de pai (Jack Haim Pinter), eram judeus sefarditas, morenos como o escritor, predominantes na Península Ibérica embora biografias citem mais sua mãe, Frances Moskowitz, originária de comunidades ashkenazi, judeus aloirados, entre a Polônia e a Ucrânia. A perseguição católica os levou para a Inglaterra, assim como a família do filosofo Bento Spinoza trocou Lisboa pela Holanda. A biografia de Pinter no site da Academia Sueca do Nobel - que ele recebeu em 2005 - afirma que "crescendo em Londres, teve de ouvir expressões de antissemitismo que, segundo ele próprio indica, foram importantes na sua decisão de tornar-se dramaturgo".

Feita a divagação, caímos no fato de Pinter ser um inglês absoluto. O artista que entende profundamente os pilares, meandros e idiossincrasias dos britânicos, retratando sua cultura com traços de absurdo. No seu teatro, os personagens travam batalhas psicológicas obscuras usando uma linguagem em que o ritmo das falas, as interrupções inesperadas, os silêncios constituem toda uma teia de subentendidos. Um inglês presumido se diferencia do outro, ou o avalia, por sutilezas de sotaque. É neste claro-escuro mental que a verdade conveniente e a ilusão neurótica se instalam. É preciso, pois, atenção à violência sob as formas polidas, a hipocrisia disfarçada de fleuma, essa calma estudada, que olha de cima, marca registrada de alguns setores ao lado da excentricidade, outro produto nacional.

Em A Coleção, em cartaz no Teatro Grande Otelo até 17 de junho, o dramaturgo, na sua primeira fase (anos 60) está distante das peças que o consagrariam, mas já faz os exercícios de ameaça e dissimulação e sexualidade difusa que o caracterizam como autor (um estudo sobre sua obra, do francês Daniel Salem, tem o título preciso de Harold Pinter, Dramaturgo da Ambiguidade).

Dois casais, um homossexual, outro heterossexual, criam um jogo de ciúmes/sexo que tanto pode ter ocorrido ou só imaginado em um meticuloso gosto pela perversão. Os quatro são profissionais da moda (o texto é dos anos 60, tempos de Mary Quant, a inventora da minissaia, da beleza andrógina da modelo Twiggy e das fotos de adolescentes seminuas de David Hamilton). Época, ou uma Londres, descrita, em parte, no filme Blow-up (1966), de Michelangelo Antonioni. Há nessa fantasia ou ritual erótico um dado inequívoco de disputa de poder e divisão de classes; e é o que interessa a Pinter. No par masculino, um deles veio do alto extrato social enquanto o amante saiu "dos cortiços", o que o bem-nascido faz questão de frisar com sentimento de posse. O outro casal vive o tédio costurado com pequenas e recíprocas indiferenças. Terreno fértil, enfim, para crueldades mentais. Pinter é exímio em situações que, embora em moldura inglesa, são universais. Afinal, não é uma campanha contra a também transgressiva, divertida e criativa terra dos Beatles e dos Rolling Stones, sempre jovens, e de refinada alta cultura.

O espetáculo em cartaz capta a parte mais visível, a superfície do tema. Por inexperiência do elenco, talvez, as sombras dos acontecimentos não estão expostas. Prevalece mais o clima de irritações e dúvidas, mesmo com a intervenção de Ariel Borghi que seria o portador da ameaça. O agente desagregador ou também vítima eventual. O ator tem o tipo apropriado e força interior, mas há dispersão de energia no conjunto da representação que inclui Amazyles de Almeida, Marcos Suchara e Marcelo Szpector.

A direção de Esther Góes, atriz de talento comprovado em montagens inovadoras e difíceis, delineia dentro do possível o enredo sem atingir o que A Coleção pretende (se pretende mesmo) nas camadas mais profundas. É problemático quando o cenário aparenta ser apenas a solução visual possível naquele palco e, ao mesmo tempo, a bela trilha sonora distrai a atenção do espectador, mas fora do contexto dramático, quando se quer adivinhar quem será o trompetista daquelas músicas. O que se assiste tem certa força, embora se pressinta que deve haver algo mais em alguma parte do conflito engendrado por Pinter, o quase português Haroldo Pinto.

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