Em 1930, um 'espião' argentino observava o Rio

Inéditas em livro, crônicas de Roberto Arlt mostram seu fascínio pela cidade, que depois ele chama de provinciana

WILSON ALVES-BEZERRA, ESPECIAL PARA O ESTADO, WILSON ALVES-BEZERRA É AUTOR DE DA CLÍNICA DO DESEJO A SUA ESCRITA (MERCADO DE LETRAS / FAPESP), PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE LETRAS DA UFSCAR, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2013 | 02h08

O escritor argentino Roberto Arlt (1900-1942), embora tenha sido até hoje pouco editado no Brasil, dialoga de modo singular com nossa cultura. Os recém-completados 70 anos de sua morte talvez expliquem a abundância de edições recentes: sua obra acaba de cair em domínio público, pondo fim aos entreveros com os descendentes pelos direitos autorais. Há verdadeira enxurrada de águas-fortes no mercado: além destas cariocas e portenhas da Iluminuras, existe a promessa de outra tradução pela Rocco; também na Argentina, as cariocas acabam de sair pela editora Adriana Hidalgo.

Esta ampla oferta, mais que salutar, é necessária, pois, no caso de Arlt, estamos diante de um autor que usou como matéria-prima a linguagem da Buenos Aires de seu tempo - palavras italianas, espanholas, brasileiras, gírias locais, enfim, uma variedade de fazer frente ao Alcântara Machado de Brás, Bexiga e Barra Funda. Assim, quem se interessa pela experiência da oralidade na literatura se deliciará ao cotejar as escolhas dos diferentes tradutores.

As águas-fortes são um gênero híbrido entre a crônica e o quadro de costumes. Publicadas sempre no espaço limitado do jornal, parecem seguir de fato o princípio da técnica de gravura, que o próprio Arlt evocou certa vez: "Nada de cores, tinta e carvão".

A centena de textos da presente edição são uma pequena mostra dos mais de duas mil aguafuertes publicados por ele no tabloide El Mundo, de Buenos Aires, a partir de 1928. Esta série traz esboços de personagens portenhos, como o homem que procura emprego, o vagabundo profissional, os garotos com ar de velhos, um casal na leiteria, mas também reflexões apressadas sobre cinema, literatura, língua nacional, modernização da cidade, saudades do bairro antigo, etc. Em alguns momentos, a escrita de Arlt vai além da circunstância imediata e se faz universal, como no texto A Inutilidade dos Livros. Nele, contrário aos preceitos da pedagogia oficial, afirma: "O que os livros fazem é desgraçar o homem, acredite. Não conheço um só homem feliz que leia. E tenho amigos de todas as idades. Todos os indivíduos de existência mais ou menos complicada que eu conheci tinham lido. Lido, desgraçadamente, muito".

Há em Arlt um frenesi pela escrita que, além de ser marca do jornalismo da primeira metade do século 20, tem parentesco - em muitos sentidos - com as crônicas de jornal de Nelson Rodrigues (1912- 1980). Arlt - como o brasileiro - advoga para si o direito à contradição: é capaz de escrever uma crônica defendendo o cinema como arte revolucionária e depois dizer num romance que o cinema é um tremendo engodo da indústria norte-americana para estimular o consumismo. Ele se compraz em provocar.

Considerado em seu tempo autor intuitivo, era lugar-comum dizerem dele que escrevia mal, que era semianalfabeto. Alberto Hidalgo, seu contemporâneo, ao comentar o livro Os Sete Loucos, em 1929, diz: "Arlt é em nosso ambiente um caso único: não conhece a gramática elementar, mas tem uma imaginação e um léxico exuberantes". Tal frase é exemplar da estreiteza de percepção de quem não se deu conta da escuta apurada do escritor e seu poder de recriar a fala na literatura.

Águas-fortes cariocas. A sagacidade de Arlt sobre a paisagem local era tão intensa que seu editor decidiu mandá-lo viajar e contar suas impressões de outras paragens para os leitores portenhos. Assim nasceram as águas-fortes galegas, madrilenhas, asturianas, africanas, uruguaias e... cariocas. Funda-se aí uma nova etapa que a edição brasileira recolhe pela primeira vez: não mais o cronista senhor da situação, mas o viajante encantado, que olha em torno e descobre. Diz ele: "Eu sou o tripulante de terceira que viaja - sabe-se lá porque fenômeno sísmico - de primeira". Os textos cariocas surpreendem, pois embora haja neles o mesmo vagabundeio pela cidade, a mesma observação errática de tudo, muitas vezes a mordacidade dá lugar ao lirismo e ao desamparo. Ao observar as casas de pedra do Rio, diz: "E o peso da pedra, dos blocos de pedra de que são construídas todas essas casas, acaba por esmagar-lhe a alma, e você caminha cabeceando, no centro da cidade, numa quase solidão de deserto às dez da noite".

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