Ely Bueno recria sua trajetória em 60 obras

Uma penteadeira colocada próxima do centro do espaço circular da Galeria Marta Traba é a chave da mostra individual de Ely Bueno que será aberta nesta terça-feira. O projeto inicial da exposição era percorrer a carreira de mais de 50 anos da artista plástica. Mas a autora achou imprópria essa forma de olhar para a sua produção, que não tem fases encerradas. Há momentos passíveis de revisão e literalmente retomados, como as séries de desenhos do fim dos anos 70, agora mostrados sobre novos suportes de papel de fibra artesanal.As três lâminas de espelhos do velho objeto - além de representarem a intimidade feminina da antiga mobília de toucador - apresentam ao espectador a imagem dupla de obras de outras datas, transformadas em trabalhos recentes, reflexos de um passado que não existe mais. Ely incluiu comentários irônicos sobre o costume de datar as obras de arte. Um deles é o conjunto de coloridas colagens sobre papel de presente, localizado em uma das extremidades do percurso circular da exposição.O desenho é a base dos cerca de 60 trabalhos que Ely selecionou para a ocasião com Fábio Magalhães, diretor do Memorial da América Latina. Além dos delicados desenhos feitos a nanquim ("os espaços pequenos são mais próprios às confissões" acredita a artista plástica), suas pinturas, objetos e assemblages são fundamentados na composição das linhas. Não por outra razão, Ely chama de ilustrações instalações como a aflitiva mesa de mármore cujo tampo, quebrado, teve as fendas preenchidas com tinta vermelha, como vestígio de um acidente ou um ato de violência.Esse domínio do desenho é mais evidente na série Cartas, exposta em uma parede central da galeria. Esses trabalhos, em formato médio, são realizados com tinta branca sobre fundo preto e em tinta preta sobre fundo branco. Trata-se de uma simulação de caligrafia, uma escrita sem sentido que ganha ritmo e formas diferentes, como se o humor da escritora se transformasse no decorrer de sua redação inexistente, apresentando-se ora mais violenta, ora mais equilibrada ou melancólica. A artista ressalta que essas telas estão muito mais ligadas ao universo expressionista do que ao concretismo, apesar da inevitável relação com a poesia deste último movimento. "Além do que, elas são criadas em um tempo muito rápido, quase inconsciente, de forma que não há retoque possível", acrescenta ela.O tema mais recorrente da individual é a ceia. Ely desdobrou o mote em imagens que evocam a celebração, como os frutos e as garrafas de vinho (em telas e objetos), a devoção religiosa (em ex-votos apresentados solitários ou em assemblages) ou ainda o sacrifício, representados por cortes, facas e vermelhos sanguíneos. Mais sutilmente, a idéia do sacrifício é relacionada ao ato sexual, como nas cenas de alcova em que as roupas sobre a cama ainda guardam as marcas do corpo de mulher. Vera d´Horta, que assina o texto de apresentação da mostra escreve: "Esse cerimonial, religioso e cultural, consome em fogo brando os sentimentos desmedidos. Essas oferendas cotidianas dissolvem a paixão feminina no martírio."Ely Bueno - De terça a domingo, das 10 às 18 horas. Memorial da América Latina. Avenida Auro Soares de Moura Andrade 664, tel. 3823-9611. Até 25/3.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.