Elvis, o balanço na mídia

Mostra em Washington celebra os 75 anos do cantor e revê como ele era tratado pela televisão, pelos jornais e fãs

Paul Farhi / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2010 | 00h00

As resenhas foram entregues, e não eram nada gentis. Um crítico de TV de Nova York o chamou de "vulgar e sem talento". Outro jornal descreveu seu estilo de cantar como "uivos e berros". Com notório desdém, o New York Times o definiu como "virtuoso do rebolado grosseiro". Talvez esta tenha sido a melhor coisa que poderia acontecer a um jovem cantor chamado Elvis Presley.

Para os americanos da era Eisenhower, ele era algo ameaçador quando irrompeu no consciente dos EUA em meados da década de 1950: um menino pobre do sul dotado de um gritante sex appeal que cantava um novo tipo de música pecaminosa (ou seja, de negros) chamado rock"n"roll. A imprensa do país estava ansiosa para despejar sobre ele o seu desprezo.

Os comentários nervosos que Elvis trouxe à tona formam a base da exposição no Newseum, de Washington, Elvis! A Revolução, o Rebolado e as Notícias Que Fizeram Sua História. Criada para coincidir com o 75.º aniversário de Elvis, a mostra diz tanto a respeito do contexto moral da época - e do papel guardião da mídia - quanto sobre o cantor.

Na época, os jornais eram instrumentos de propriedade da classe média, envolvidos na manutenção do status. Eram editados por adultos para adultos, e não para adolescentes loucos por Elvis. Apesar de nem todas as reportagens sobre Elvis o condenarem, a imprensa em geral sabia para quem estava escrevendo.

"Presley é um jovem de 21 anos que ganha mais de US$ 40 mil por semana para balançar sobre os calcanhares e cantar músicas sugestivas", zombou o New York Journal American em junho de 1956. "Ele protagoniza o tipo de espetáculo que deixa as mocinhas violentamente excitadas e os adultos violentamente furiosos."

Uma reportagem da Associated Press reproduzida na exposição diz que Elvis "não tinha nem sequer a qualidade da verdadeira obscenidade, resumindo-se à exploração pouco saudável do entusiasmo das mentes e dos corpos mais jovens".

Alerta. Um crítico do Los Angeles Times desmereceu a primeira aparição de Elvis no The Ed Sullivan Show: "Quem tinha curiosidade de saber qual era o motivo de tanta gritaria, não descobriu a resposta." Uma revista católica alertou seus leitores: "Cuidado com Elvis Presley."

O Newseum exibe amostras da histeria da mídia em torno de Elvis com objetos emprestados da mansão do cantor em Graceland: um conjunto de capa e macacão com brilhantes, uma jaqueta de couro com uma moto Harley Davidson, o paletó de veludo que ele usou para se encontrar com o presidente Nixon para a famosa foto tirada na Casa Branca.

Uma pergunta inexplorada na exposição: o que teria acontecido se a mídia tivesse ignorado, ou até aprovado, Elvis? Parece difícil acreditar que os jovens teriam enlouquecido tanto se mamãe e papai (ou seus representantes nos jornais) tivessem achado Elvis incrível.

A diretora dos arquivos de Graceland, Angie Marchese, diz que a reação inicial da mídia ajudou a chancelar a imagem de Elvis como rebelde, reservando para ele um lugar entre seus fãs.

Se a mídia impressa criticava, a TV agia com cautela para explorar ao máximo o potencial dele. A primeira grande aparição de Elvis, no programa The Milton Berle Show, em junho de 1956, provocou a reação habitual: protestos. Alguns dias mais tarde, Elvis apareceu no programa Steve Allen Show, no horário nobre.

Até então, o rei do horário nobre na TV, Ed Sullivan, tinha recusado Elvis em seu programa. Mudou de ideia depois da visita de Elvis ao programa de Allen, que concorria com o de Sullivan e o tinha superado muito em audiência naquela noite.

Sullivan então pagou a Presley a quantia sem precedentes de US$ 50 mil por três visitas ao seu programa naquele outono. Quando as duas primeiras apresentações provocaram no público uma indignação ainda maior, os censores da CBS ordenaram ao câmera de Sullivan que filmasse Elvis somente da cintura para cima, fazendo dele um personagem ainda mais lendário.

Para melhor ou pior, esta pode ter sido a grande marca de Elvis, o controvertido. A hostilidade da mídia começou a recuar nos dois anos seguintes, talvez por causa da exaustão ou da cuidadosa redefinição de carreira engendrada pelo "Coronel" Tom Parker, o predatório e engenhoso empresário de Elvis.

Exército. No Newseum é possível acompanhar o início da mudança, que começaria com a convocação de Elvis para o exército em 1957. Em vez de deixar a galinha dos ovos de ouro voltar ao anonimato numa base militar na Alemanha, Parker reinventou Elvis como um patriota, o garoto americano modelo, e vendeu esta imagem à mídia. Quando Elvis se apresentou na junta militar em 1958, sua pesagem e seu primeiro corte de cabelo foram tratados como acontecimentos importantes.

Em poucos anos, o selvagem e perigoso roqueiro estaria de volta e em formato Tecnicolor, envolvido em filmes cafonas. As jaquetas de couro eram coisa do passado. Elvis, "muito obrigado a todos", tinha sido incorporado à cultura popular. E a mídia, como costuma fazer, partiu para o ataque à próxima grande ameaça ao nosso estilo de vida. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.