Elogio bem-humorado à terceira idade

A terceira idade (ou, no infeliz eufemismo, a "melhor idade") é uma questão europeia, que começa também a aparecer no Brasil por causa do envelhecimento da população. Mais pessoas chegam à idade avançada, o que é vantagem pelo aumento da expectativa de vida, mas um problema adicional para famílias, cônjuges e a previdência social. Nesse nicho, ocupado recentemente por Hotel Marigold, inscreve-se também esse delicado filme francês E Se Vivêssemos Todos Juntos, de Stéphane Robelin.

O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2012 | 03h10

Cinco amigos - dois casais e um solteirão mulherengo - se conhecem há mais de 40 anos e começam a enfrentar os problemas da velhice. Uma das mulheres se descobre com câncer, e esconde a doença do marido, este já um tanto esclerosado. Outro casal vive numa casa muito grande e sente-se solitário, pois os filhos já se foram há muito tempo e os netos não encontram muita motivação para visitá-los. O solteirão emprega seu tempo - e dinheiro - em prol das prostitutas da vizinhança, até descobrir que seu coração e outras partes da anatomia já não respondem como antes.

Com um elenco de grandes atores e atrizes, Robelin consegue ser agradável, divertido e razoavelmente realista nessa sua abordagem da terceira idade. Jane Fonda e Geraldine Chaplin são as duas mulheres, Jeanne e Annie. Seus maridos são Albert (Pierre Richard) e Jean (Guy Bedos). O dom juan é Claude (Claude Rich). Ao quinteto se une um companheiro muito mais jovem, Dirk (Daniel Brühl, de Adeus, Lênin), no papel de cuidador informal quando os mais velhos decidem resolver seus problemas morando juntos, o que é expresso pelo título do filme.

O melhor de E se Vivêssemos Todos Juntos é o senso de humor com que trata de situações propensas ao drama. O humor não esconde a realidade. Olha para ela e a tempera de humanidade. Quando um deles se espanta de que em abrigos para idosos só se encontre gente velha, parece dizer o óbvio. Mas esse óbvio fica engraçado vindo de alguém que parece um tanto fora de foco. E, além disso, aponta para o fato desagradável de que muitas vezes essas veneráveis instituições se transformam em depósitos de pessoas dependentes.

Desses achados, e de outros, vive o filme. Como o da pessoa que deseja um caixão "mais alegre" para se enterrar, porque as cores dos tradicionais lhe parecem muito deprimentes. Lembra um pouco a personagem Zulmira, de A Falecida, de Nelson Rodrigues, cujo único sonho de vida era um enterro de luxo. Essa brincadeira um tanto fúnebre tem efeito de atenuar a meditação sobre a morte - inevitável em qualquer tipo de obra medianamente realista sobre o tema.

O que não torna E se Vivêssemos Todos Juntos um filme mórbido em momento nenhum. Pelo contrário, é muito mais um elogio à vida, que deve ser saboreada da melhor maneira possível, até o inevitável fim. Para isso, toca também num dos poucos temas verdadeiramente tabus da contemporaneidade - o sexo na terceira idade. A nossa hipócrita sociedade aguenta muita coisa, menos que os nossos velhinhos continuem a desejar, o que obviamente eles fazem até o fim.

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

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