Elmore Leonard revive o faroeste em Hot Kid

Elmore Leonard diz que costuma deixar seus personagens fazerem uma audição para ele, ocasião em que lhes dá liberdade para "falar à vontade". Foi em um desses momentos inspirados que surgiu o antológico bordão "olhe pra mim", de Chili Palmer, o protagonista de Get Shorty, recriado à perfeição por John Travolta no filme O Nome do Jogo. Se depender de uma frase de efeito, o jovem e destemido delegado federal Carl Webster, herói de Hot Kid (Rocco, 394 págs., R$ 42,50), também entrará para o rol dos tipos excêntricos criados por esse ex-publicitário que há 53 anos "diverte-se" como escritor. "Se eu tiver de sacar minha arma, atirarei para matar", Webster avisa aos criminosos que persegue pela Oklahoma dos anos 30. E ele cumpre a promessa. Seu antagonista é Jack Belmont, filho de milionário e rebelde "com causa", que rejeitou a boa vida para se unir a um bando de ladrões de banco. Ele quer se tornar o inimigo número 1 da América. Por outro lado, sua captura lançará a reputação de Webster às alturas. Ambos querem ser o hot kid, a sensação do pedaço, seja no mundo do crime ou na defesa da lei. Leonard afirma que não escreve com um tema em mente, mas a busca pela fama permeia essa narrativa que, embora seja ambientada durante a Depressão e explore o universo dos gângsteres, vem banhada pelo espírito do faroeste, gênero no qual o autor se lançou na literatura. Webster nada mais é que o xerife durão que se arrisca em duelos com bandoleiros. E se no velho oeste colonos abatiam índios como animais selvagens, aqui o preconceito recai sobre os imigrantes italianos, "carcamanos socialistas, inimigos dos costumes americanos", segundo um ex-agente da Justiça que recruta membros da Ku Klux Klan para fazer "serviços de limpeza". Carl Webster cativou seu criador e Leonard não só retomou o personagem em uma série em 14 partes publicada no New York Times, como garantiu sua presença em seu próximo livro. E mais: disse que, se lhe pedissem, sairia do jejum cinematográfico de 17 anos e escreveria o roteiro para o cinema. Porque embora tenha aprovado as versões de Get Shorty (O Nome do Jogo), Ponche de Rum (que originou Jackie Brown), Out of Sight (Irresistível Paixão) e do clássico faroeste Hombre, estrelado por Paul Newman em 1967, não faz cerimônia ao criticar filmes como O Golpe (inspirado em The Big Bounce) e Be Cool - O Outro Nome do Jogo. Entre as mais de 20 adaptações de sua obra, são raras as que conseguiram recriar na tela os diálogos ágeis e o humor afiado desse artesão da palavra. Aos 81 anos, Leonard mantém a vivacidade com uma produção profícua - são 40 romances -, mas também reserva tempo para curtir a família de cinco filhos, nove netos e dois bisnetos. De sua casa em Detroit, ele falou por telefone ao Estado. O senhor cresceu em um período marcado pela ação de gângsteres. De que forma o submundo do crime continua a influenciá-lo? Sempre fui fascinado pelo universo dos gângsteres, mas a verdade é que o policial é um gênero popular, as pessoas gostam de crimes. Olhe a quantidade de seriados do gênero na televisão. Eu comecei escrevendo faroestes, mas quando deixaram de ser atraentes comercialmente tive de procurar outro mercado. Sempre fui um autor comercial, não sou um escritor sério (risos). Escrevo seriamente, mas não sou sério. Tenho de me divertir quando trabalho e não criar algo que seja importante, mas que me chateie. Hot Kid é ambientado na Oklahoma dos anos 30, mas a maneira como toca na questão da celebridade é muito atual. Teve intenção de fazer um paralelo com a busca pela fama nos dias de hoje? Não, em Hot Kid há uma sobra, um resto dos sentimentos do faroeste, embora historicamente essa época tenha terminado na entrada do século 20. Quando eu tinha 9 anos, em 1934, Bonnie e Clyde foram mortos ao norte da Luisiana e havia uma foto minha tirada ao lado de um carro, em que tinha meu pé no estribo em uma imitação de Bonnie na famosa foto em que ela coloca o pé no pára-choque do automóvel. Aquela imagem estampou todos os jornais na época da morte. Sentia-me atraído por pessoas como eles e achei que seria interessante explorar essa vontade de "ser alguém", mas não pensei no mundo de hoje. Então de onde veio a idéia para Hot Kid? Na verdade, não começo a escrever com um tema na cabeça, mas a partir de cenas com os personagens. Elas passam a funcionar juntas e então o livro toma forma. Eu nunca sei qual é o meu tema. Scott Frank, o roteirista que adaptou Get Shorty e Out of Sight, me contava quais eram eles. Ele lia os livros, analisava-os e tirava suas conclusões. Eu dizia: "Achou isso mesmo? Uau!" Não penso em temas, mas em começo, meio e fim. Que tipo de pesquisa tem de fazer para um livro como esse? Uma quantidade incrível. Tenho um pesquisador que está comigo há 25 anos. Tivemos de investigar, por exemplo, o que estava acontecendo em Oklahoma no início dos anos 30 e descobrimos que houve um boom do petróleo. Ele me trouxe muita coisa, como as vozes das pessoas que trabalham nessa área. Normalmente tenho mais material de pesquisa do que preciso, porque nunca se sabe quando haverá uma frase útil em algum lugar. Hot Kid apresenta dois personagens opostos: Jack é só maldade enquanto Carl é o típico herói. Acredita que uma pessoa possa nascer com má índole? Não sei... É possível nascer na pobreza e não ter outra opção, a não ser roubar. Mas acho que há sempre uma escolha. O caso de Jack é diferente. Ele é filho de um milionário, podia ter tudo, mas cresceu com a ausência do pai que estava fora atrás de petróleo. Nunca experimentou o carinho paterno. Creio que haja razões para ele ter entrado no mundo do crime, talvez fosse uma forma de chamar a atenção. Carl Webster é um tipo carismático. Acha que pode tornar-se tão popular quanto Chili Palmer? Quem sabe? É um personagem forte. Voltei a escrever sobre ele em uma série dominical (Comfort to the Enemy) em 14 partes para o New York Times. A trama salta para os anos 40 e envolve alemães em um campo de prisioneiros de guerra em Tulsa. Carl investiga um caso de suposto suicídio. Ah, também há um conto com o neto de Carl, um vaqueiro de rodeio que se torna dublê de cinema. Por sinal, assisti ao show de um vaqueiro brasileiro que venceu um concurso no Texas e ganhou muito dinheiro. Faz tempo que o senhor não escreve um roteiro. Voltaria à ativa para adaptar Hot Kid? Se alguém me pedisse provavelmente sim, e se houvesse um bom diretor envolvido no projeto. Porque para mim roteiro é só trabalho. Escrever um livro é gostoso, mas quando se cria um roteiro você é um funcionário contratado a serviço de alguém que nem sempre é capaz. Agora estou ansioso para ver o resultado do trabalho de John Madden (diretor de ´Shakespeare Apaixonado´), a quem admiro e que está rodando Killshot. Ele diz ter amado o livro e que pretende ser o mais fiel possível. O Nome do Jogo foi um sucesso, mas a seqüência Be Cool - O Outro Nome do Jogo fracassou. Por que acha que isso aconteceu, se os dois livros são ótimos? Bem, o diretor F. Gary Gray me procurou antes das filmagens e perguntou se tinha algum conselho para dar. Repeti o que disse a Barry Sonnenfeld antes de ele rodar Get Shorty: quando alguém disser algo engraçado, não corte para outro ator na cena e o faça rir, pois essas pessoas são sérias. Sonnenfeld entendeu que tinha de esperar pela reação da audiência e não de alguém na cena. Por isso Get Shorty funcionou. Mas Gary queria divertir a todos do set eforçou o riso. O senhor tem 81 anos e continua escrevendo com vigor. Qual o segredo para se manter original? É claro que depois de escrever por 50 anos você pode cansar, e é duro manter o frescor. Mas venho elaborando uma história com Carl Webster na Detroit dos anos 40 e tenho me divertido. Por enquanto, o título é Hitler´s Birthday (Aniversário de Hitler), mas acho que meu editor não vai aprovar. É sobre um americano que nasceu na Alemanha e voltou para os Estados Unidos moleque. Ele adora tudo o que se refere ao nazismo e é a cara do Himmler, o comandante da SS. Esse rapaz, Walter, acha que tem um destino a cumprir. Assim como Himmler entrou para a história por exterminar os judeus, Walter planeja fazer algo grandioso no dia do aniversário de Hitler, para que todo o mundo relembre seu feito. Carl vai estar de olho nele. Acho que o segredo de continuar escrevendo bem vem do fato de adorar o que faço. Mas também tento me manter informado. Leio bastante. Agora mesmo estou lendo três livros, um deles chama-se Stiff e é sobre cadáveres, o que acontece com o corpo quando a pessoa morre. É um best-seller, acredita?

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