Elmore Leonard, o guru de Tarantino

A paixão do cineasta Quentin Tarantino pela obra do escritor Elmore Leonard faz pensar que o crime, às vezes, compensa. Adolescente, o futuro diretor de Pulp Fiction e Kill Bill entrou em uma livraria e, depois de folhear alguns livros, enfiou no bolso do casaco aquele que o fascinara mais que os outros, chamado The Switch. Deu azar, pois a segurança o flagrou em pleno ato e, ao deixar a loja, foi pego. Moral da história: passou uma semana em um reformatório. "Ele me disse que, anos depois, voltou à mesma livraria e roubou o livro, dessa vez sem ser preso", diverte-se Leonard, de 78 anos, autor da seleção de contos que encantou Tarantino. Conhecido por seus romances policiais, Leonard utilizou seu estilo inconfundível também em uma série de livros de faroeste, que inicia a Série Western lançada agora pela Rocco - na primeira fornada, já são cinco títulos, a começar por Hombre, escolhido como um dos 25 melhores do gênero na história da literatura americana e que o diretor Martin Ritt levou para o cinema em 1967, estrelado por Paul Newman, seguido de Os Caçadores de Recompensas, Valdez Vem aí, Quarenta Chibatadas menos Uma e Na Mira da Arma. "Escolhi esse gênero porque amava os filmes de faroeste. Quando comecei, em 1951, o interesse do público se dividia entre westerns e policiais e isso me facilitou escrever também para o cinema", contou Leonard ao Estado, a partir de sua casa em Detroit, nos Estados Unidos. "Para isso, fiz muitas pesquisas, especialmente sobre como era o México e o Arizona nos anos 1800: como eram os caubóis, as roupas que eles usavam, o tipo de arma preferida." A preocupação se justificava - em suas histórias, Leonard cria ficção a partir de um contexto histórico bem definido. E suas histórias são pontuadas por questões que vão da luta de classes ao racismo, passando pelo tema da disputa de terras, matriz central do western. E, claro, intermediado por muito bangue-bangue. Curiosamente, Elmore Leonard prefere escrever romances policiais aos de faroeste. O motivo é simples: "Gosto mais de histórias que nos rodeiam, ambientadas no nosso tempo e com preocupações atuais", justifica. "E, infelizmente, o interesse pelo faroeste começou a diminuir no fim dos anos 1950." Assim, em 1968, ele resolveu mudar de gênero e dedicar-se a tramas policiais entremeadas de um humor que o notabilizou internacionalmente. "Na verdade, morei um tempo na Flórida, onde comprei um pequeno hotel para minha mãe. Lá, conheci tipos que me inspiravam, como um investigador particular e assassinos de aluguel", conta. "Homenageei um deles dando seu nome a um de meus personagens." Leonard refere-se a Chili Palmer, papel vivido por John Travolta em O Nome do Jogo, que Barry Sonnenfeld dirigiu em 1995. Ao lado de Jackie Brown, de Quentin Tarantino, trata-se do filme mais popular entre os inspirados em sua obra. Tarantino, aliás, promete adaptar outra obra de Leonard e homenageia seu escritor preferido em Kill Bill 2, exibindo em uma cena o cartaz do filme Desafiando o Assassino (Mr. Majestyk), de Richard Fleischer, outra história do escritor levada ao cinema. "Gostei muito de Kill Bill", confidencia Leonard. "Acho que Tarantino pensava um pouco em minha obra enquanto produzia a sua."

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