Fabio Motta/ Estadão
Fabio Motta/ Estadão

Elke Maravilha foi brincar de outra coisa, como ela mesma dizia

Criou bordões, como chamar seu público, independente da idade, de 'Crianças'.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2016 | 11h17

Manequim, modelo, jurada, apresentadora e atriz - Elke Giorgievna Grunnupp foi um monte de coisas, mas foi principalmente aquela persona exuberante que se impôs, graças à televisão e ao cinema, no imaginário brasileiro. Criou bordões, como chamar seu público, independente da idade, de 'Crianças'. Ele morreu na madrugada desta terça-feira, 16, numa clínica do Rio. Tinha 71 anos e estava em coma induzido. Sofria de diabetes e não respondeu à medicação após uma cirurgia de úlcera. Mas ela não morreu. não. Foi brincar de outra coisa, como dizia que ocorreria um dia.

Ela nasceu na Rússia, em Leningrado, e veio criança para o Brasil. Foi expoente do chamado 'movimento pornô', que não tinha nada de pornografias convencional, nem de erotismo, e era muito mais arte de resistência. No cinema desde 1970, trabalhou com grandes diretores - Cacá Diegues, Júlio Bressane, Nelson Pereira dos Santos, Hector Babenco, Miguel Borges. Às vezes eram pequenos papeis, ou então era ela mesma. Mas, em 2006 - há dez anos! -, Sérgio Rezende fez dela personagem de seu longa Zuzu Angel, lembrando a gente de outra faceta daquela mulher alegre e que até passava uma ideia de alienação. Elke foi guerreira contra a ditadura cívico-militar, segurando a onda da amiga estilista que afrontava e enfrentava o sistema, berrando alto e forte por seu direito de mãe de enterrar o filho morto pela repressão. O movimento pornô tinha esse caráter de oposição aos militares.

Na TV, foi jurada do Chacrinha e do Show de Calouros. Andrucha Waddington colocou-a, também como personagem, em seu vibrante musical sobre o 'velho guerreiro'. Teve programa próprio - Elke Maravilha -, participou de novelas, do Big Brother Brasil 4. No cinema, a lista de filmes é enorme - Barão Otelo no Barato dos Milhões, Os Machões, Quando o Carnaval Chegar, O Rei do Baralho, Xica da Silva, Tenda dos Milagres, Pixote, a Lei do Mais Fraco, Romance, A Suprema Felicidade, Meu Passado Me Condena e um monte de etc. O último papel foi em Carrossel 2 - O Sumiço da Maria Joaquina. Nããooo, não foi. Esse foi o último que você já viu, mas tem mais. Em setembro estreia Lua em Sagitário, de Márcia Pinheiro. Esse, sim, vai ser - infelizmente - o último. Um romance jovem contra o pano de fundo da questão agrária no Brasil. Pois é, a despedida mesmo vai ser num filme engajado. Mais uma vez, Elke quis surpreender a todos nós, suas 'crianças'.

 

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