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Elizabeth e o Brasil

Para CDA, Bishop escreveu ‘o mais tocante poema sobre a condição social das favelas’

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

17 de dezembro de 2019 | 03h00

Um pouco mais de Elizabeth Bishop, em suas cartas e no olhar de amigos:

  

Ela caminhava para seus 41 anos quando, no final de 1951, tomou um navio em Nova York para conhecer a Terra do Fogo. Numa escala em Santos, esticou até o Rio de Janeiro – e ali viveu uma versão feliz da história do Paraíso, jardim de delícias no qual, tendo comido o perigoso fruto, foi admitida, e não expulsa, como Adão e Eva. Comprara na rua um caju, “combinação indecente de fruta com castanha”, e teve violenta reação alérgica. Tão inchada ficou que por dias não deu conta de abrir os olhos. Foi socorrida pela amiga americana Mary Morse e pela companheira dela, Lota de Macedo Soares, moça culta, sensível e inteligente que conhecera dez anos antes em Nova York. Do desvelo de Lota brotou uma paixão – e, ardendo nela, Elizabeth já não viu necessidade de se aventurar numa Terra do Fogo.

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Já naquela crise alérgica a escritora americana julgou haver detectado uma característica dos nativos que muito a divertia, e da qual tratou em cartas:

“Os brasileiros parecem adorar doenças, todo mundo ficou interessadíssimo, cada um trouxe um remédio, entravam no meu quarto todos ao mesmo tempo dizendo ‘Coitadinha’, invocando a Virgem, etc. toda vez que eu tomava uma injeção”.

“É muito interessante adoecer e tomar remédio em português, e os brasileiros ficam na maior animação quando tem alguém doente.” 

“O único órgão que a maioria dos brasileiros reconhece é o fígado, a gente chega a ficar enjoada de ouvir tantas conversas infindáveis sobre o estado do fígado de cada um.”

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Mesmo tendo vivido no Brasil de 1951 a 1974, Elizabeth Bishop se expressava mal em português. Certa vez contou à amiga Linda Nemer que tinha passado a tarde a papear com a mãe dela, dona Najla, imigrante libanesa que também não dominava o idioma. “Foi muito agradável”, contou. Quando Linda quis saber sobre o que haviam conversado, respondeu: “Não sei. Ela não entendia a minha língua e eu também não entendia a dela”.

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Gostava do idioma português, “cheio de diminutivos, aumentativos, formas carinhosas”. Deliciava-se com palavras que sentia faltarem na língua inglesa, como “aproveitar”, no sentido de tirar vantagem, ou “desmarcar”, recurso maravilhoso, dizia, quando “você quer pular fora de um compromisso, ou desconvidar-se”.

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José Alberto Nemer, irmão de Linda, conta que chegou um dia para visitar Elizabeth e a encontrou conversando com o poeta americano James Merrill. Chorava. “Não se preocupe”, minimizou ela, “estou apenas chorando em inglês...”

Algumas observações que a escritora fazia sem a menor pretensão poderiam valer poema, acredita José Alberto. Por exemplo, um comentário sobre uma lamparina a querosene que ficava sobre a lareira da Casa Mariana. “Era um trabalho popular e artesanal”, conta ele, “que usava o bojo de uma lâmpada queimada sustentada por alças de lata recortada, terminando com uma tampinha de garrafa de onde saía o pavio”. “Agora sei por que gosto tanto deste objeto”, iluminou-se Elizabeth: “Quem fez isso quis ressuscitar a luz da lâmpada”.

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Não gostava do Rio, “esta pobre cidade suja e moribunda”. A decantada paisagem carioca, na sua opinião, seria um ótimo lugar para se construir uma cidade, mas não aquela.

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Impressionou-a a quantidade de “homens de calção chutando bolas de futebol por toda parte”. Quando o Brasil venceu a Copa de 1958, comentou: “É muito mais importante para eles do que seria um Sputnik” – o primeiro satélite artificial, posto a girar em torno da Terra pelos soviéticos em 1957.

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Elizabeth via entre os brasileiros “uma espécie de obsessão com beleza”: “Todo mundo vive descrevendo os olhinhos e narizinhos e queixinhos das crianças – e, quando os vejo, muitas vezes me decepciono”.

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Achava que o Brasil, como país, não tinha saída, por ser “letárgico, egoísta, meio autocomplacente, meio maluco”. Adorou quando, em 1959, o rinoceronte “Cacareco” teve quase 100 mil votos nas eleições para a Câmara Municipal de São Paulo, e escreveu a sua tia Grace: “Achei isso uma atitude muito boa – e bem brasileira”.

“Ah, que país inacreditável!”, avaliou numa carta. Achava “gostoso e relaxante estar num país onde ninguém sabe direito em que estação do ano estamos, em que dia estamos, que horas são”. Julgava estar num lugar “onde a gente se sente de algum modo mais perto da verdadeira vida, a de antigamente”. Era fascinada pelo carnaval, “uma grande confusão, porém organizada e artística”, e via o samba como “a última poesia popular que ainda se faz no mundo”.

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Uma vantagem inesperada de viver aqui: “A última vez que me senti alta foi quando morava no Brasil”. 

Elizabeth media 1,62 m.

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O Brasil literário não tomou muito conhecimento de Elizabeth Bishop. Muito menos a paparicou, e não apenas porque vivesse isolada na serra de Petrópolis, depois em Ouro Preto: era gringa, lésbica e, em política, conservadora. Considerava “provincianos” os intelectuais brasileiros em geral. “Já observei que os escritores daqui costumam aparecer em fotos deitados em redes, e talvez seja este o problema da literatura brasileira.” 

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Elizabeth gostava de João Cabral, de Drummond, de Manuel Bandeira. Achava Cecília Meirelles “antiquada, mas muito boa”, e Clarice Lispector, “uma mulher ossuda e clara”, melhor do que Jorge Luis Borges. Com Vinicius de Moraes, terá ido além da simples admiração: na casa da amiga comum Lili Correia de Araújo, em Ouro Preto, há quem diga que, no embalo de muito papo e uísque, às vezes passavam a noite juntos. Dele, Elizabeth traduziu o Soneto de Intimidade, e se orgulhava de ter levado a revista New Yorker a admitir pela primeira vez a palavra “piss”, incontornável no verso “e quando por acaso uma mijada ferve”. 

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“Agora estou sentindo que poderíamos ter conhecido melhor e amado mais Elizabeth Bishop”, escreveu Carlos Drummond de Andrade na morte da escritora. “Ela soube amar o Brasil, vivendo longos anos em Petrópolis e Ouro Preto e extraindo do nosso cotidiano temas para sua poesia.” E, referindo-se a O ladrão da Babilônia, desafiou: “Quem escreveu até hoje o mais tocante poema sobre a condição social das favelas cariocas senão a autora da balada de Micuçu, morto no morro da Babilônia?”.

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