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Elizabeth de Portzamparc propõe reconquista das ruas para gestar as cidades do futuro

Arquiteta defende uso do concreto como defesa contra mudanças climáticas e restrição ao vidro

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2013 | 10h51

A arquiteta e urbanista franco-brasileira Elizabeth de Portzamparc abriu escritório em São Paulo em agosto. Baseada em Paris há décadas (ela chegou a ter também escritório no Rio, que fechou), Elizabeth é professora na École d’Architecture Paris-la-Seine e é casada desde 1982 com Christian de Portzamparc, Pritzker de Arquitetura (e autor da Cité de la Musique de Paris e da Cidade das Artes do Rio).

Elizabeth reuniu-se no dia 29 com o secretário de Desenvolvimento Urbano de São Paulo, Fernando de Melo Franco, a convite da Prefeitura, para propor soluções para questões urbanísticas da metrópole, tais como o transporte público, a flexibilização de espaços e a sustentabilidade. Na ocasião, ela falou ao Estado. Entre outras coisas, a arquiteta defende que a criação de corredores de ônibus pela cidade pode ser “uma agressão enorme às identidades específicas de cada bairro ou setor” da cidade.

“Não é só ter os corredores do ônibus. O fato é que eles são acompanhados de verticalidade excessiva, o que vai gerar paredões construídos ao lado desses corredores, uma verticalidade contínua.” Para a urbanista, é impossível imaginar um corredor que vá atravessar a cidade sem se inserir nem dialogar com cada bairro que estará atravessando. “Cada bairro é diferente. Criar um corredor que atravesse verticalmente a Vila Madalena é um crime urbano”, afirmou a arquiteta.

Se tudo ao redor dos corredores de ônibus se tornar muro, lobby ou hall de edifício, sem diálogo com o espaço público, as ruas se tornarão “mortais para a escala humana”, analisa Elizabeth. Ela preconiza a instalação de espaços flexíveis, pequenos comércios, ateliês e serviços pelo poder público ao longo dos eixos, para requalificar os espaços. “Aos poucos, as ruas se tornaram um espaço não praticável, espaços escuros, sem vida, que geram violência. Não podemos construir mais para os próximos anos, mas para as próximas décadas. Temos que prever como serão as cidades do futuro”, afirmou.

A urbanista fez críticas públicas ao modelo de adensamento e verticalização do Plano Diretor de São Paulo, que dispôs 500 milhões de m² para construções ao longo dos eixos, “sem limites de estoques construtivos e sem diferenciar as regiões da cidade do ponto de vista ambiental e urbanístico”.

Na França, Elizabeth acaba de projetar o Musée de la Romanité de Nîmes, cuja construção (as obras iniciam-se no primeiro trimestre de 2014) dialoga com o anfiteatro romano Arènes de Nîmes. Desenvolveu um projeto para desabrigados em Paris (que foi considerado pelo prefeito Bertrand Delanoë como um plano prioritário do Atelier Internacional du Grand Paris). Considera que a escassez de moradia popular e de classe média é um problema mundial, e não só brasileiro.

Ela também desenvolveu um projeto de hotel de cinco estrelas muito elogiado em Casablanca, no Marrocos, e atualmente negocia com a direção de Inhotim para desenhar um hotel em Brumadinho que possa abrigar os visitantes do maior museu de arte contemporânea a céu aberto do mundo.

A arquiteta crê que não basta apenas repensar o espaço físico da cidade, mas também “as políticas de gestão e controle” dos locais abertos pelo novo urbanismo. Seu estabelecimento em São Paulo é mais um lance do desembarque de “grifes” internacionais da arquitetura nas grandes cidades brasileiras – já estão no País Herzog & de Meuron, Santiago Calatrava, Diller, Scofidio & Renfro e Zaha Hadid, entre outros.

“Para a arquitetura moderna brasileira, a influência e os impactos da vinda de (Gregori) Warchavchik e de Le Corbusier ao Brasil são incontestáveis”, comenta Elizabeth, que foi a responsável pelo projeto de renovação do Riocentro, no Rio, em 2005 (logo a seguir, ela parou de atuar no Brasil para concentrar-se em seu escritório na França). “Atualmente, os grandes escritórios de arquitetura têm construído no mundo todo. Podemos ter receio que esta importação de culturas e tecnologias não seja sempre positiva, pois há arquitetos que constroem no exterior sem pensar no contexto local. São escritórios que podem destruir a cultura local pela falta de respeito ao contexto. Mas há outros, entre os quais está o meu, e tenho orgulho de poder afirmar isto, que antes de conceber um projeto analisam o contexto local, a arquitetura de cada cidade e projetam estabelecendo um diálogo bem pensado com cada lugar.”

Segundo Elizabeth, o estabelecimento dos “starchitects” no Brasil ultrapassa a questão da importação de grife. “Os escritórios que são convidados para atuar em outros países são conhecidos, é claro. Têm nome, têm ‘grife’, pelo fato de fazerem um bom trabalho, cauteloso, inovador, com estética e conceitos pessoais. Ou então são conhecidos pela quantidade e tamanho dos projetos, o que não é a mesma coisa.”

No segundo caso, avalia, os escritórios não trazem interesse para os países em que se estabelecem “e é bom realmente repudiá-los”, completa. “Aliás, tem vários escritórios brasileiros construindo no exterior. Não seria interessante analisar o impacto das obras deles nos diferentes países?”, provoca.

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