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Elis Regina: É, só tinha de ser com vocês, havia de ser pra vocês, Andréia e Laila

Antes de tudo, acho necessário agradecer a todas as atrizes que por medo, falta de empatia ou qualquer outra razão pessoal – todas respeitáveis – recusaram o papel de Elis, tanto no musical quanto no cinema. Hoje, está claro terem aberto o caminho para as melhores opções possíveis: Laila Garin e Andréia Horta. Curiosamente, mulheres muito diferentes entre si.

João Marcelo Bôscoli, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2016 | 05h00

Em comum, o fato de serem talentosas, cheias de personalidade e coragem para desmistificar esse tabu. Foram as Chiquinhas Gonzagas, as Abre-Alas da Elis.

Agora, liberou geral. E eu estou muito feliz com isso.

Sempre vi Elis como uma referência, um metro, uma luz guia. Algo para inspirar e nunca reprimir ou inibir. Basta ver qualquer entrevista sua – a última concedida à TV Cultura, por exemplo –, e perceber seu senso de colocação. Quando perguntaram a ela sobre a então novíssima Vanguarda Paulistana, se pretendia gravar seus compositores, ela respondeu que talvez sua presença pudesse diluí-los e isso a preocupava.

Admiro muito a teoria de Jung na qual ele diz ser o artista uma síntese de aptidões contraditórias. Por um lado, é uma “pessoa comum”, com apetites, desejos, frustrações, contas para pagar. Por outro, é uma pessoa em um sentido maior: uma “pessoa coletiva”. Aquela que capta e dá forma ao inconsciente da raça humana e o devolve sob a forma de uma obra de arte. E a realização dessa tarefa mobiliza uma grande quantidade de energia.

É como se fossem dotadas de um certo capital de energia ao nascer e o lado que precisa realizar essa tarefa sobre-humana tentasse tomás-la integralmente para si.

Nada poderia impedir a execução de sua missão – muito menos o lado humano. Este é visto quase como um erro, uma limitação do artista.

Se Jung conhecesse Elis, reformularia sua tese. Ela tirava muita energia das tarefas domésticas cotidianas.

Depois de Como Nossos Pais se transformar na música mais escolhida do Brasil entre calouros de música, Andréia Horta e Laila Garin, quem sabe?, tenham inaugurado algo similar no campo da dramaturgia.

Só tinha de ser com vocês. Muito obrigado.

* JOÃO MARCELO BÔSCOLI É PRODUTOR MUSICAL E FILHO DE ELIS REGINA

 

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